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O PESO DA ESCRAVIDÃO

Tráfico negreiro foi um dos negócios mais lucrativos da fase de implantação do capitalismo, mas assombrou a consciência dos que o praticavam. A marca desse passado continua a pesar na história do Brasil.
Laura de Mello e Souza
Departamento de História

Universidade de São Paulo
Membro da Academia Brasileira de Ciências


A escravidão marcou profunda e irreversivelmente a memória e a história do Brasil. Não é possível esquecer que, entre o final do século 16 e o meado do século 19, milhares de seres humanos originários de diversas partes do continente africano foram introduzidos à força na América portuguesa, constituindo um dos negócios mais lucrativos da fase de implantação do capitalismo. Nem que o tráfico negreiro nutriu um número considerável das grandes fortunas da época. 
Grandes comerciantes, homens públicos de destaque e até aqueles que, depois, se disseram defensores da supressão do vil comércio – imposta pelos ingleses em 1850 – e da implantação do trabalho livre, que só se generalizaria após a abolição, ocorrida em 1888, puseram dinheiro nas embarcações que comerciavam africanos entre um e outro lado do Atlântico. Mesmo se consentido e encarado como negócio lucrativo, o “trato dos viventes” – título do livro clássico do historiador Luiz Felipe de Alencastro – não orgulhava muitos dos que o praticavam, assombrando-lhes a consciência e levando-os, assim que possível, a tentar apagar seu passado de negreiros.

Na defesa das cotas encontra-se o sentimento de reparação ante as iniquidades do tráfico e da exploração do trabalho escravo
Consciência que pesa ainda e continuará a pesar, sob as mais diversas formas. Na defesa das cotas encontra-se o sentimento de reparação ante as iniquidades do tráfico e da exploração do trabalho escravo. Na crença de que todos os nossos males advêm da escravidão também. A escravidão é tema recorrente em alguns dos principais ensaios de compreensão do Brasil, como Casa grande & senzala, de Gilberto Freyre, e a desqualificação do trabalho é um dos fios condutores de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda. Boa parte da melhor historiografia produzida hoje no Brasil versa sobre a escravidão e temas dela derivados.
Tema para historiadores
Conforme ouvi há anos de uma conhecida historiadora norte-americana, o tema da escravidão é, ao mesmo tempo, qualidade e defeito dos estudos historiográficos brasileiros. Não se pode jamais esquecê-lo ou minorá-lo, mas é preciso, também, ultrapassá-lo. Há quantidade de assuntos para se abordar nos trabalhos acadêmicos, ainda mais em universidades tão jovens quanto as nossas – as mais velhas não alcançam sequer um século.
O Haiti, que na época da Revolução Francesa (1789) se chamava São Domingos e era conhecido como a ‘pérola das Antilhas’, contava com uma população na qual 85% eram escravos. Conheceu a primeira grande revolta de escravos negros da história, aboliu a escravidão em 1794 e proclamou a independência em 1804. O processo teve início sob a Revolução Francesa e atingiu o ponto crítico – o da supressão do vínculo colonial – já na época de Napoleão Bonaparte.

Talvez essa triste história de longa duração ajude a compreender os motivos que fazem pesar nossa consciência
Tanto a maioria dos radicais revolucionários (os jacobinos) quanto a dos homens do nascente império napoleônico eram contra a independência e a favor da escravidão, evidenciando as contradições que sacudiam as relações entre as metrópoles e suas colônias. Na França, pregava-se a igualdade entre os homens; nas colônias, deixava-se que interesses mercantis – então obrigatoriamente colonialistas e escravagistas – falassem mais alto.
Para reconhecer a soberania do Haiti, o governo francês exigiu uma indenização de 150 milhões de francos-ouro: algo como 2% do produto interno bruto da França na época (Le Monde, 3/5/2014). Abatida a soma, a ilha pagou 90 milhões e arrastou, até a metade do século 20, uma dívida gigantesca para com o país europeu.
Uma vez independente, o Brasil honrou pagamentos e contraiu dívidas, mas manteve a escravidão por todo o Império, só a abolindo às vésperas da República. Talvez essa triste história de longa duração ajude a compreender os motivos que fazem pesar nossa consciência e que continuam a nortear as escolhas temáticas de nossos historiadores.


PATRIMÔNIO DE VITÓRIA DE SANTO ANTÃO DESPREZADO.

A árdua luta entre o poder público e as ações do Instituto contra a degradação do Patrimônio e preservação da Identidade da cidade de Braga!
Por Uenes Gomes Barbosa
Identidade, o que vem a ser isso? Dominique Wolton define identidade como o caráter do que permanece idêntico a si próprio; como uma característica de continuidade que o Ser mantém consigo mesmo. Nossa identidade nos distingue como cidadãos. Identidade também está atrelada ao conjunto de signos que enfatizam as características de um País. Mas recentemente temos acompanhado congressos e mesas redondas debatendo sobre a perda de identidade de algumas cidades importantes para a construção de nossa história. Em Pernambuco, a cidade de Olinda corre o risco de perder o título de Patrimônio da Humanidade por conta dos riscos na preservação do patrimônio material; em Vicência o centro Histórico, descaracterizado, tem perdido a graça ante os turistas que a visitavam e em Belo Jardim uma política mais contundente, tenta preservar o conjunto arquitetônico da cidade de um fenômeno irracional que tem se manifestado em todas as regiões, o descontrole e a falta de interesse ocasionando a perda de Identidade.
O que tem a ver Vitória de Santo Antão com esse contexto?
O Silogeu, teatro da cidade, foi palco do evento de comemoração pelos 170 anos de elevação de Vitória, da categoria de Vila à Cidade, que se deu em 1843 pelo então Barão da Boa Vista, vitoriense. Estiveram presentes na solenidade ocorrida na última sexta-feira (10), representantes da sociedade intelectual de Vitória, dentre professores, literários, políticos e militares que se fizeram presente na mesa de honra. O evento foi marcado por grande discussão sobre essa temática. Analisando as ações da Prefeitura, o presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Vitória de Santo Antão, Prof. Pedro Férrer, inferiu muito oportunamente chamando a atenção das autoridades para a preservação do patrimônio cultural e afirmando que o Instituto, em momento algum se omitirá ante as atrocidades e o desrespeito com a população, em deixar o patrimônio esvair-se em meio a escombros e lixo acumulado defronte às construções. É de extrema necessidade que haja um olhar mais sensível, uma vez que o poder administrativo tem a pachorra de fechar os olhos para o que está acontecendo. “O instituto não é macaquinho de mesa de escritório que não vê, não ouve e não fala, pelo contrário a Instituição tem o compromisso de autuar e punir seja quem for que esteja depredando a cidade,” afirmou o presidente numa de suas falas.
É notório que a cidade de Vitória tem relevante importância para o entendimento da História de Pernambuco. Foi no local, hoje conhecido como Monte das Tabocas, que aconteceu em 1645 a expulsão dos holandeses das terras pernambucanas, Vitória! O Instituto Histórico e Geográfico de Vitória tenta driblar as dificuldades que são ínfimas e realizar um trabalho onde possa contemplar o que mais é significativo aos vitorienses: sua história.
Vale ressaltar que a Câmara municipal na pessoa do Presidente mostrou comprometimento com a causa patrimonial numa das obras mais necessárias do Instituto Histórico: O casarão mourisco do século 18 e em estado de conservação em xeque, pois os recursos são escassos e não há interesse da administração a preservação do patrimônio.
No ensejo fez-se uma homenagem à sua filha premiada e de quem a cidade orgulha-se imensamente, Dona Maria do Carmo Tavares de Miranda em reconhecimento a sua importância para as letras pernambucanas e contribuições que deixou em trabalhos acadêmicos no campo da Filosofia. Maria do Carmo nasceu na cidade de Vitória de Santo Antão, na Zona da Mata do Estado. De formação erudita, a pesquisadora iniciou sua trajetória fazendo duas graduações: Letras Clássicas e Filosofia, ambas na Universidade Federal de Pernambuco. No final da vida, sabia traduzir para mais de oito idiomas, incluindo grego, latim, aramaico e hebraico, segundo conta o jornalista Leonardo Dantas, seu amigo pessoal. Mais tarde, seguiria para estudar na França, doutorando-se em Filosofia na Universidade de Sorbonne, em Paris, antes de voltar para o Brasil para lecionar na Universidade Federal de Pernambuco.
Vitória de Santo Antão precisa estar engajada na causa patrimonial. É incansável a luta do Instituto. Cabe aos vitorienses não deixar a sua identidade acabar nem a memória ser esquecida nos arquivos dos poderosos. A história precisa estar nas mãos do povo, os poderosos deturpam e fazem degringolar o processo na qual a Instituição está emergindo.

A TRANSIÇÃO DO FEUDALISMO AO CAPITALISMO

Por  Francisco Falcon & Gerson Moura

      As mudanças econômicas que ocorreram no período de transição do feudalismo para o capitalismo, estão ligadas, direta ou indiretamente, ao processo de acumulação primitiva de capital. Essa acumulação se deu nos setores agrícola, industrial e mercantil.
     No setor agrícola, o processo de acumulação se realiza através das transformações agrárias conhecidas como cercamentos ou enclosures, implicando no avanço do capitalismo no campo. Tais cercamentos eliminam as sobrevivências feudais, promovendo a reorganização das parcelas, expropriando rendeiros e parceiros, apropriando-se o senhor das reservas e terras comuns, cercando-as a fim de reuni-las às suas próprias terras para faze-las produzir mais e melhor. Assim, liquida-se o sistema comunitário de exploração, suprimem-se os direitos coletivos sobre as terras, pastos e florestas, provocando a saída de grande contingente de camponeses do campo ou convertendo-os em simples assalariados.
     Praticados intensamente em certas regiões da Inglaterra desde o final do século XV, os cercamentos tiveram nos séculos XVI e XVII um outro caráter suplementar, ou seja, irá substituir o cultivo de cereais pela criação de ovelhas, dada sua maior rentabilidade em função da alta dos preços da lã no mercado internacional, no momento em que as indústrias têxteis se difundem.
     Em outras regiões do continente europeu, os cercamentos, próximos dos centros urbanos, traduzirão mudanças no comportamento da nobreza ou a apropriação de terras valorizadas em termos capitalistas, por elementos burgueses.
    No setor industrial, verifica-se nesse período o aparecimento e expansão acelerada do capital industrial, quer dizer, o capital resultante da aplicação de recursos nas atividades produtivas de tipo artesanal e do seu reinvestimento nessas mesmas atividades.
    Quer seja oriunda do próprio meio artesanal, através de um processo de diferenciação interna, quer seja egressa do setor mercantil, o fato importante é que a burguesia industrial tende a distinguir-se cada vez mais da burguesia mercantil, interessando-se acima de tudo pela expansão da produção industrial. Esta burguesia é a grande responsável pelo desenvolvimento dos diversos tipos de manufaturas que encontramos nessa época. Beneficiária, a princípio, da política de privilégios inerentes ao mercantilismo, ela tende, aos poucos, a combatê-los e contesta-los como instrumentos inadequados e até mesmo nocivos ao desenvolvimento ulterior da produção e dos negócios em geral.
    A manufatura assume nesse processo uma importância muito grande porque é no seu interior que se faz sentir cada vez mais a crescente diferenciação entre os detentores do capital e os que, embora ainda possuam seus instrumentos de trabalho, se subordinam cada vez mais aos primeiros como assalariados. Até que ocorram grandes progressos técnicos, colocando a máquina nas mãos do capitalista, o artesão pode resistir, bem ou mal, à sua completa expropriação, fazendo valer a sua capacidade técnica e artística em defesa de sua autonomia relativa.
    No plano mercantil, a acumulação decorre, na realidade, de duas atitudes inseparáveis do comerciante europeu desde a parte final da Idade Média: pirataria e comércio. O saque das colônias é a fonte mais imediata dessa acumulação, bastando recordar o saque espanhol na América e o inglês na Índia.
    Esgotando-se rapidamente as possibilidades oferecidas pelo saque, é preciso incentivar o comércio, outra fonte de acumulação – veja-se, por exemplo, o comércio com o Oriente em busca das especiarias e com a África em busca de escravos.
    Possuindo a América terras e minas e sendo necessário reunir aí os fatores produtivos para dela obter mercadorias exportáveis, configuram-se as três outras formas assumidas pela acumulação primitiva no plano mercantil: a exploração das minas, a exploração agrícola através das plantações tropicais e, como condição de ambas,  a exploração da mão-de-obra indígena ou importada. Esta última apresenta-se, por sua vez, como fonte de grandes lucros para os comerciantes nela interessados, podendo-se acrescentar aí também os lucros advindos do tráfico dos chamados “escravos brancos” para as colônias inglesas da América do Norte.
    A luta por estas diversas atividades de exploração altamente lucrativas, ou por algumas delas, irá caracterizar as relações internacionais européias do século XVI ao século XVIII, com constantes guerras continentais e marítimas, européias e coloniais, ao longo das quais é possível estabelecer sucessivas “hegemonias”: a dos paises ibéricos no século XVI, a holandesa no século XVII e a inglesa, fortemente contestada pela França, no decorrer do século XVIII.
    A exploração das áreas coloniais possibilitou, assim, a organização de um verdadeiro sistema de acumulação à sombra do domínio exercido sobre a respectiva produção e comércio. Tal “sistema colonial” distingue perfeitamente as características da colonização e do relacionamento com a metrópole entre as chamadas “colônias de povoamento” e as “colônias de exploração”. Em relação a estas últimas é que o referido “sistema” tende a funcionar plenamente com a exportação da produção agrícola ali desenvolvida sos o sistema de plantation, monopolizada pelos comerciantes metropolitanos de acordo com o princípio do “exclusivismo”. Proíbe-se toda e qualquer relação comercial com outras colônias ou com outros países. Ao mesmo tempo, restringem-se as atividades da colônia, no campo da produção, a fim de não haver concorrências com a produção metropolitana. A colônia existe para a metrópole e sua função precípua é possibilitar o enriquecimento da mesma, quer como fornecedora de mercadorias quer como consumidora dos produtos metropolitanos ou importados através da metrópole. No fundo, o sistema colonial é uma peça essencial do próprio “sistema mercantilista”.
    O mercantilismo, como “política econômica de uma era de acumulação primitiva”, integra e coordena estes esforços de uma burguesia em expansão, garantindo-lhe privilégios, lucros, exclusividade, defendendo, em suma, os seus níveis de renda, através da proteção estatal, e assegurando-lhe as bases políticas e institucionais para fazer valer os seus interesses materiais em relação não apenas à nobreza, mas principalmente em relação ao campesinato e aos artesãos, progressivamente reduzidos à condição de proletariado rural e urbano.


B – A LIBERAÇÃO DE MÃO-DE-OBRA (Formação do proletariado)

    “Dizer hoje que o capitalismo pressupõe a existência de um proletariado já se tornou um lugar-comum, mas o fato de que a existência de tal classe dependa de um determinado conjunto de circunstâncias históricas raras vezes mereceu atenção no passado, em mãos de autores que dedicaram uma boa soma de análise à evolução do capital sob suas várias formas e ao desabrochar do espírito capitalista.” (Dobb, Maurice. A Evolução do Capitalismo”, p. 272-3)


    Na realidade, a liberação da mão-de-obra, principalmente a camponesa, e a conseqüente formação de um proletariado constituem apenas a outra face do processo que denominamos de “acumulação primitiva”. Esta, na verdade, é o processo criador tanto do Capital quanto do Trabalho, como produtos conjuntos. Houve assim o desapossamento ou expropriação de muitos por alguns poucos, através da vantagem econômica ou política.

“Pode ser que um dos motivos para a negligência comum nesse aspecto da questão tenha sido a suposição implícita de que o aparecimento de um exército de trabalhadores fosse um produto simples da população crescente, criando mais braços do que os empregáveis nas ocupações existentes e mais bocas do que as sustentáveis pelo solo então cultivado. A função histórica do Capital foi dotar do benefício do emprego esse exército de braços excessivos. Se fosse esta a história real, poderíamos ter algum motivo para falar do proletariado como sendo uma criação natural, em vez de institucional, e tratar a acumulação e o crescimento de um proletariado como processos autônomos e independentes. Tal quadro idílico, no entanto, deixa de ajustar-se aos fatos. Na verdade, os séculos nos quais um proletariado se recrutou mais rapidamente eram aqueles de aumento demográfico natural lento e não rápido e a escassez ou plenitude de uma reserva de mão-de-obra nos diversos países não se correlacionava a diferenças comparáveis em suas taxas de crescimento demográfico”. (DOBB, Op. cit. p. 273-4)


    A análise do processo histórico de formação do proletariado, ou de liberação de mão-de-obra para as relações capitalistas, pode ser levada a cabo em função dos diversos setores das atividades produtivas: agricultura e indústria.

A liberação da mão de obra na agricultura está ligada ao processo de cercamento dos campos, já descrito, ao qual cabe a maior parte da responsabilidade pela expropriação do camponês, privando-o de suas terras e reduzindo-o à condição de assalariado. De fato, o mecanismo mesmo do cercamento dos campos determina, logo de saída, a perda de suas terras (parcelas) por todos os camponeses que não podem defender juridicamente o seu direito de ocupá-las em caráter hereditário ou vitalício. Quase sempre só os pequenos proprietários (verdadeiros ou ocupantes das terras em caráter hereditário) conseguem manter-se, pois os que possuem terras arrendadas são compelidos, cedo ou tarde, a abandoná-las. Já aí, portanto, temos uma primeira fonte de camponeses sem terras. Aos poucos, porém, o pequeno proprietário cercado, sem as terras e os direitos de uso comum que suplementavam os seus recursos e ainda às voltas com o crescimento familiar e a divisão de terras daí decorrente, vê-se obrigado a abandonar o campo em busca de outras regiões ou então se dirige para as cidades, de onde muitas vezes emigra para as colônias.
    Em muitos casos, porém, a difusão do tipo de manufatura dispersa, ou mesmo a simples atividade do comerciante-empresário que percorre os meios rurais a fim de utilizar a mão-de-obra camponesa, permite o desenvolvimento do artesanato rural, fornecendo ao camponês artesão uma renda suplementar que irá possibilitar a sua resistência, durante um prazo ora maior, ora menor, às pressões do capitalismo agrário, pois surgem as insuficiências dos seus rendimentos agrícolas.
    É evidente que a substituição de muitas pequenas propriedades por algumas poucas e grandes, de que a Inglaterra é o exemplo clássico, não constitui a única forma de desapossamento capaz de fazer surgir um proletariado. A outra forma deriva da tendência à diferenciação econômica existente dentro da maioria das coletividades de pequenos produtores.

“Os fatores principais nessa diferenciação são as diferenças surgidas no correr do tempo na qualidade ou quantidade de terras possuídas e nos instrumentos de cultivo da terra e animais de trabalho, sendo instrumento do desapossamento eventual a dívida” (DOBB, Op. cit .p. 307-311


Na indústria, a liberação da mão-de-obra processa-se de maneira mais lenta, uma vez que as corporações defendem vigorosamente os seus privilégios. Apesar dessa resistência, as corporações foram incapazes de impedir o desenvolvimento da indústria doméstica rural, bem como o aparecimento das manufaturas privilegiadas, de modo que esses novos setores concorrem de maneira crescente com a produção das oficinas corporativas, incapazes de acompanhar a expansão do mercado consumidor. Além disso, dificilmente a produção artesanal urbana do tipo tradicional consegue resistir aos preços mais baratos que caracterizam a produção dos novos setores.
    Acresce notar que as próprias corporações são dilaceradas  e enfraquecidas pelos seus conflitos e contradições internas, opondo cada vez mais os companheiros aos patrões ou mestres. Verifica-se, ainda, no interior mesmo das corporações, um processo de diferenciação que irá dar origem à burguesia industrial, pois, enquanto alguns patrões enriquecidos se transformam em empresários, a maioria dos mestres e companheiros são reduzidos à situação de dependência em que aparecem como semi-assalariados. Desse modo a corporação se desintegra, pressionada por forças internas e externas que irão promover progressivamente o seu desaparecimento, o qual atinge a sua etapa derradeira no momento mesmo em que a burguesia industrial consegue imprimir ao Estado as suas características liberais, hostis, portanto, ao mercantilismo do Antigo Regime. Mestres e companheiros, em sua maior parte, irão constituir, então, a mão-de-obra especializada das últimas manufaturas e das primeiras fábricas, desempenhando um importante papel nessa etapa do desenvolvimento industrial.


C – OS PROGRESSOS DA TÉCNICA APLICADA À PRODUÇÃO

    Os progressos técnicos estão evidentemente ligados às duas “pré-condições” que acabamos de focalizar: capital e mão-de-obra. É a partir das necessidades criadas pelo desenvolvimento da produção e do comércio, típico da expansão européia verificada a partir do século XV, que os progressos técnicos se aceleram. O renascimento científico marca o primeiro momento desse impulso cuja importância se torna decisiva nos séculos XVII e XVIII, quando então a curiosidade científica, a nova mentalidade voltada para a observação e a experimentação abre caminho às conquistas científicas desse período e, concomitantemente, ás possibilidades de aplicação e utilização dos princípios e teorias assim elaborados ao próprio processo produtivo. Trata-se de um capítulo extremamente difícil e controvertido, qual seja o de analisarmos este avanço simultâneo, paralelo ou não, da ciência e da técnica durante os séculos XVII e XVIII.  Nascendo de exigências práticas ou de especulações teóricas, conforme o caso, as invenções se sucedem e abrem novas perspectivas para a solução de problemas que embaraçam determinadas etapas das atividades produtivas.
    No plano da produção propriamente dita, verifica-se a tendência à crescente divisão e especialização do trabalho, vinculadas à necessidade de maior produtividade. Com isso, abrem-se novas possibilidades à utilização de inventos mecânicos capazes de multiplicar o trabalho humano, utilizando a energia hidráulica e mais tarde o vapor. Realmente, sem essa divisão acentuada do trabalho, é impossível entender-se o processo através do qual foi possível inventar máquinas capazes de realizar com maior rapidez e com maior regularidade movimentos simples até então executados manualmente. É evidente que não se poderia esperar, nos primórdios da industrialização, a invenção de máquinas complexas capazes de executar simultânea e sucessivamente tarefas múltiplas. Os progressos técnicos, portanto, permitiram que se inventassem máquinas capazes de multiplicar o trabalho humano sem com isso, no entanto, chegar propriamente a dispensá-lo. Numa segunda etapa, coube à máquina, em função da sua própria natureza e do que ela representa em termos de investimento de capital, acelerar o desenvolvimento do sistema capitalista, desempenhando um papel decisivo no processo de separação entre o trabalhador e os seus instrumentos de trabalho, uma vez que tende a acentuar a distinção entre o capitalista, dono do capital e conseqüentemente das máquinas, e o trabalhador assalariado, que dele depende para a própria sobrevivência, como comprador de sua força ou capacidade de trabalho.
    O advento da máquina, como coroamento dos progressos técnicos e científicos da era pré-capitalista, constitui, ao mesmo tempo, o marco inicial de uma nova era assinalada de maneira cada vez mais acentuada pelo avanço científico e tecnológico e suas aplicações, sempre crescentes, aos processos produtivos. Esta transformação verificou-se historicamente pela primeira vez na Inglaterra da segunda metade do século XVIII, muito embora tenha sido preparada pelos avanços já obtidos desde o século XVI e no decurso do século XVII.  Na Inglaterra do século XVIII verificava-se, com o rápido crescimento do mercado interno e do mercado externo, uma exigência de constante aumento da produção manufatureira, a fim de atender a estas novas possibilidades de venda.
    Para o empresário, este aumento da produção deveria processar-se de tal maneira que a sua margem de lucro fosse preservada e se possível ampliada, o que nos leva ao problema da produtividade. Realmente, o grande problema que está nas próprias origens do maquinismo é a questão da redução dos custos de produção. É fácil entender-se que, mantido o trabalhador, isto é, a mão-de-obra, em condições bem próximas às do seu limite de sobrevivência por força dos baixos salários da época, não seria possível reduzir ainda mais esses salários, pois isto representaria a própria liquidação da mão-de-obra. Medidas paliativas tais como a maior utilização do trabalho feminino e infantil não poderia resolver em definitivo o problema. Daí, como única saída, procurar-se o aumento da produtividade dessa mão-de-obra, que por ser abundante, ganha muito pouco, mas da qual se pretende extrair o máximo possível de sua capacidade de trabalho. A divisão e a especialização do trabalho vão permitir então que, com a introdução da máquina, seja possível resolver o problema. De fato, a máquina multiplica a produtividade da mão-de-obra, pois é possível agora ao mesmo trabalhador executar, com o auxílio dela, tarefas que antes demandariam muitas horas e dias de trabalho ou muitos trabalhadores. É fácil, portanto, compreender que a máquina veio agravar a tremenda exploração que caracteriza os primórdios da revolução industrial, pois agora o empresário capitalista irá procurar, simultaneamente, obter o máximo do capital que investiu na compra ou fabricação da máquina e o máximo do salário pago ao trabalhador, ao só pela própria utilização da máquina, mas pela maior extensão possível do dia de trabalho, o qual não raro atingia 16 ou mesmo 18 horas.


7 de mar. de 2014
Postado por UENES GOMES

DEPOIS DO PAI, O CORPO DE DOM PEDRO II E SUA FILHA SERÃO EXUMADOS

USP fará exumação de Dom Pedro 2º e da princesa Isabel
 
Menos de dois anos após a exumação dos restos mortais de d. Pedro 1º, o primeiro imperador brasileiro, e de suas duas mulheres, as imperatrizes d. Leopoldina e d. Amélia, a mesma equipe de cientistas da Universidade de São Paulo (USP) deve estudar os remanescentes do Segundo Reinado: o imperador d. Pedro 2º e sua mulher, d. Teresa Cristina, a filha do casal, princesa Isabel, e seu marido, o conde D'Eu.
A reportagem apurou que os trâmites já estão bem avançados e a exumação deve ocorrer neste semestre. Com o know-how adquirido no estudo anterior, a maior dificuldade desta fase será o traslado dos restos mortais até o Hospital das Clínicas, em São Paulo, onde os exames serão realizados. Isso porque, se na primeira vez os nobres estavam sepultados na cripta do Parque da Independência, no Ipiranga, d. Pedro 2º e família estão bem mais distantes: a 463 km da capital paulista, no Mausoléu Imperial, na Catedral de Petrópolis, no Rio.
 
Os responsáveis pelo estudo ainda analisam se o transporte será realizado por via terrestre ou aérea - mas já sabem que ao menos no primeiro trecho, o da Serra de Petrópolis, o transporte deve ser rodoviário.
Assim como nos trabalhos realizados em 2012, os restos mortais da família devem ser submetidos a uma bateria de exames, como tomografias e ressonâncias magnéticas. As análises serão acompanhadas por radiologistas e patologistas, entre outros especialistas. Os diagnósticos são de ponta. Cálculos realizados a pedido da reportagem em 2013 mostravam que exames similares não sairiam por menos de R$ 150 mil.
Acredita-se que o corpo da princesa Isabel esteja embalsamado - o que é visto com otimismo pelos pesquisadores, uma vez que um corpo bem conservado propicia pesquisas avançadas. Uma das surpresas do estudo anterior foi o fato de d. Amélia, segunda mulher de d. Pedro 1º, estar mumificada.

Segredo

Realizados em sigilo entre fevereiro e setembro de 2012, os estudos com d. Pedro 1º e suas duas mulheres foram divulgados com exclusividade pela reportagem em fevereiro de 2013.
Entre outras revelações, o estudo desmentiu a versão histórica de que d. Leopoldina teria caído, ou sido derrubada, de uma escadaria e fraturado o fêmur. Ficou provado que d. Pedro 1º tinha quatro costelas fraturadas, resultado de dois acidentes a cavalo.
 
FOTO: Família imperial do Brasil.
 
As informações são do jornal O "Estado de S. Paulo".

 
 
Veja o vídeo sobre a exumação dos restos mortais de D. Pedro I e suas duas esposas.
29 de jan. de 2014
Postado por UENES GOMES

HISTORIADOR LANÇA "OFÍCIOS DA FOTOGRAFIA EM MINAS GERAIS NO SÉCULO 19"

O Ofício da Fotografia em Minas Gerais no Século XIX
“Em casa de um photographo. Batem a porta e entram três caipiras: – Sumcê é que pinta gente? – Sim, por que? – Nós queremos ser pintado todos junto. – Ah! Já sei, querem em grupo. – É isso mesmo em quadrupede”. A engraçada passagem reflete a visão simplória de muitos mineiros do século 19, para o uso da “photographia”. O chiste foi publicado na edição de 19 de junho de 1881 de “O Leopoldinense”, jornal de cidade na região da Zona da Mata mineira, e está reproduzido no recém-lançado “O Ofício da Fotografia em Minas Gerais no Século XIX (1845-1900)”, do historiador Rogério Arruda.
 
Tente imaginar: no século 19 não existia câmera em todos os bolsos como hoje, muito menos, o “selfie” em rede social de um descontraído presidente norte-americano num funeral. Naquela época, para tirar um simples retrato era preciso planejamento e atenção às raras oportunidades. As câmeras eram levadas em lombo de mulas e a chegada dos “retratistas” em alguns locais era tão aguardada quanto a de um artista.
 
Em Minas Gerais, eram comuns “reclames” em jornais com a “itinerância” desses poucos representantes da “photographia”. As fotos de políticos ou de homens do povo tinham que ser encomendadas. E é por meio dessas pegadas publicitárias na nascente mídia da época que o historiador Rogério Ferreira de Arruda resgata um curioso lado da história das imagens.
 
Estudioso da fotografia em Minas desde a graduação na UFMG, Arruda verificou neste período uma lacuna sobre a história da fotografia no estado e desdobrou mais uma pesquisa depois de um doutorado. 
 
Pé na estrada
 
O historiador pôs mãos à obra e pé na estrada, assim como fizeram os retratistas que estudou. No levantamento foram recolhidos indícios em várias cidades mineiras, na época, importantes polos comerciais e sociais.
 
“Essa itinerância era uma característica não somente de Minas, mas da fotografia mundial”, reflete Arruda. O historiador explica que os fotógrafos, para garantir mais trabalhos, tinham que viajar. E nessas viagens, expandiram a fotografia pelo mundo.
 
Histórias e a gramática da época vivas nos anúncios
 
Um dos aspectos mais curiosos do livro “O Ofício da Fotografia em Minas Gerais no Século XIX (1845- 1900)” é o levantamento de imagens de anúncios de pelo menos 130 fotógrafos que atuaram no período. Os textos trazem uma gramática bem peculiar e um traquejo publicitário pomposo para atrair o cliente que queria “retratar-se”.
 
Em Lavras, o retratista Alberto Landoes declarava ao público da cidade que, “tendo aberto seu gabinete de trabalhos, acha-se a desposição das pessoas que queiram retratar-se”. Ali, o fotógrafo prometia imagens a “preços rasoaveis”. Já em Ubá, a “Photographia Popular” de Henrique Barandier avisa que “attende à chamados para fóra”.
 
Mas em Campanha é onde havia novidade. Na cidade, o fotógrafo Maximo Riberi “collocado sempre na vanguarda dos novos progressos” da sua arte, dispunha de novo processo fotográfico instantâneo “para retratos de crianças e de pessoas nervosas”, que não ficariam quietas nas demoradas técnicas de registros anteriores.
 
O livro traz a história destes fotógrafos e estúdios onde trabalhavam do século 19, em Minas. O quebra-cabeça dessas biografias foi montado por meio dos tais “reclames”. E foram muitas peças encontradas. Desde os pontos da itinerância que estes artistas faziam pelos rincões mineiros, até a técnica que usavam para fotografar. Novas sociedades para o trabalho, outros fotógrafos que herdavam os empreendimentos e demais ocorrências também puderam ser levantadas.
 
 
capa do domingo - Anúncios antigos - ACERVO BUBLIOTECA MUNICIPAL MURILO MENDES-DIVULGAÇÃO
Diário da Tarde, Juiz de Fora (1894) e Almanak de Juiz de Fora (1892) (Fotos: Acervo Biblioteca Municipal Murilo Mendes/ Divulgação)
 
 
No final do livro, uma tabela com o nome do fotógrafo, o período em que trabalhou, o estabelecimento ou referência de lugar onde trabalhava (“Photographia das Bellas Artes”, em Juiz de Fora, ou o “Gabinete Dentário e Photographico”, de Ouro Preto), a cidade e o endereço (“Cidade de Minas”, como se chamava Belo Horizonte, ou até “Freguesia de Águas Virtuosas”, atual Lambari). 
 
Historiador teria descoberto primeira fotógrafa de Minas
 
No “clube do bolinha” dos retratistas homens, uma mulher também deu o ar da graça. Trata-se da “viúva Liebenau”, que pode ser a primeira fotógrafa de Minas Gerais. “Seu marido, Guilherme Liebenau, era alemão e foi um dos principais fotógrafos de seu tempo. Ele adoece e morre em 1884. Sua esposa é que ficará à frente do ateliê de fotografia do finado”, conta o autor do livro, Rogério Arruda.
Durante alguns meses, a viúva anunciou na imprensa que estava dando continuidade aos negócios do esposo falecido no ateliê chamado “Photographia Alemã”. Os textos, em mais um registro primoroso da publicação, diziam: “Os trabalhos da casa são ja vantajosamente conhecidos como bem acabados e a annunciante envidará sempre todos os esforços, afim de poder acompanhar os progressos d’arte”.
 
Em um primeiro momento, ela divulga o trabalho ao lado de um sobrinho. Depois, sozinha, em Ouro Preto. “Portanto, sendo fotógrafa ou não ela foi a única mulher proprietária de estabelecimento fotográfico encontrada em minha pesquisa”, ressalta.
 
A partir de agosto de 1885, não mais é possível saber do paradeiro da possível fotógrafa. “Apesar de não ser possível afirmar com absoluta certeza que ela foi a primeira em Minas, esta hipótese também não pode ser descartada”, considera Arruda.
 
“O Ofício da Fotografia em Minas Gerais no Século XIX (1845-1900)” tem prefácio da historiadora Maria Inez Turazzi e projeto gráfico do designer Bruno Soriano. O projeto virou livro após ser contemplado pelo 12º Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia, no ano passado. 
 
Atualmente, Rogério Arruda é professor de História na Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). O livro tem distribuição gratuita nos lançamentos e para algumas instituições. Em BH, há exemplares na Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, no Arquivo Público Mineiro, no Instituto Cultural Amilcar Martins. 
 
Os próximos lançamentos acontecerão em São João del Rei, Ouro Preto e Juiz de Fora, com datas as serem confirmadas. Informações pelo e-mail r.p.arruda@uol.com.br
 
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25 de jan. de 2014
Postado por UENES GOMES

NAS ENTRELINHAS DA HISTÓRIA



O que não aparece na história pode ser vista através da historiografia.

Por historiografia entende-se a escrita da história, como ela foi construída, a história da história, das influências temporais. Ao longo de toda a história a preocupação de deixar registrado os acontecimentos fez parte do desejo do homem, por isso alguns tomam o significado de história como conversa, discurso.  Nos corredores do tempo a História sempre passou para seus contemporâneos a credibilidade de uma certeza, uma verdade quase que ampla sobre os fatos estudados.

Sendo assim a historiografia interpela esses períodos e indaga se nós enquanto estudantes da história estamos compreendendo de fato o que a história nos quer passar. Salvo que não há uma verdade absoluta das coisas e tampouco quem a escreveu tinha pleno desejo de deixar clara as informações. É claro e evidente que determinados autores sempre puseram no papel seu ponto de vista, suas intenções para com aquele momento de modo que nós, leitores pudéssemos confiar naqueles fragmentos de discursos.

Discursos constituem os textos históricos. Neste segmento estaremos constantemente analisando discursos completos de épocas, mas fragmentos destes, haja vista que o discurso é bem maior que o que está no descrito no papel. Há por trás destes fragmentos uma série de intenções que o autor não enfatiza, para que possamos entender as complexidades que existem no texto, precisamos verificar o tempo histórico do indivíduo, sua posição na sociedade e qual corrente de pensamento ele se aproxima.

Partindo dessa análise lembremos José Carlos Reis com seu livro Identidades do Brasil: de Varnhagen a Fernando Henrique Cardoso. Este escritor é Filósofo e Historiador e pretendeu na sua obra que se divide em dois volumes atentar a população brasileira, sobretudo os estudantes, - abordando vários autores historiadores que revolucionaram o pensar o Brasil – que nossa população precisava olhar no passado explicações para entender o presente e planejar um futuro eficiente, sem cometer os mesmos erros que os autores analisaram de um passado nem tão distante assim. A ideia do Carlos Reis é utilizar fragmentos dos discursos dos renomados historiadores para mostrar soluções.

Contudo analisar a disciplina de historiografia é olhar as entrelinhas da história para a partir desses não ditos podermos conhecer mais das intenções do autor. São esses não ditos que vão movendo a história no sentido de que é preciso você conhecer mais de que modo aquele texto foi produzido e em qual período para melhor compreensão da narrativa. Devemos tratar o texto pela sua historicidade. Para concluir citamos Frank Ankersmit, que definindo historiografia diz “Como um dique coberto por uma camada de gelo no final do inverno, o passado foi coberto por uma fina crosta de interpretações narrativas; e o debate histórico é muito mais um debate sobre os componentes da crosta do que propriamente sobre o passado encoberto por ela”. (MALERBA, 2006, pág. 19)

Não há como desviar a atenção da historiografia, será sempre ela que desvendará essas incógnitas que permeia entre esses fragmentos de discurso.
 
IMAGEM: CLIO - Representação grega da musa da História e da criatividade.

O 'NÃO' DA MUCAMA CAETANA.

Mucama de uma fazenda de café no Vale do Paraíba, Caetana se recusou a consumar seu casamento forçado 
Alice Melo
Imagem: Fundação Biblioteca Nacional
Às margens do Paraíba do Sul, a jovem Caetana se casou à revelia com o também escravo Custódio, em uma cerimônia simples, na capela da fazenda Rio Claro, em 1835. A mucama de 17 anos tinha “grande repugnância ao estado de matrimônio” e não lhe animava a ideia de aderir à vida conjugal com aquele que se tornaria seu esposo. Com medo de Luís Mariano de Tolosa, seu senhor, o qual ordenara que se casasse, Caetana disse sim no altar, mas entre quatro paredes não tardou em fazer valer sua vontade. Negou-se a consumar o laço sagrado por três noites seguidas, mesmo após árduas investidas do cônjuge.
Humilhado, Custódio se queixou à família da moça e acabou por despertar a ira do padrinho Alexandre, dono da casa em que o casal morava. Na quarta noite em que ela se negou a aceitar o marido na cama, Alexandre ameaçou castigar Caetana por desobediência. Provida de uma coragem incomum para as mulheres da época, a escrava fugiu aos prantos, sozinha, em direção à casa-grande.
Não se sabe se foi por pena, mas Luís Mariano Tolosa ouviu as queixas da mucama, que trabalhava diariamente em sua casa, e decidiu consultar um advogado para iniciar o processo de anulação do casamento. O processo de Caetana e Custódio foi o primeiro (e um dos únicos) no Brasil que teve como ponto de partida a negativa de uma escrava a consumar um casamento arranjado, como mostrou a pesquisa de Sandra Lauderdale Graham, que descobriu essa história. Uma vez iniciado, o trâmite abriu uma brecha na legislação vigente ao permitir que escravos fossem ouvidos em Corte, num julgamento que envolvia três partes: esposa, marido e Igreja. As testemunhas “puseram a mão direita sobre a Bíblia e juraram dizer somente a verdade”. Apesar de todo o empenho das partes, a anulação foi negada. 
Para tanto, foi fundamental o depoimento do padre que selou a união do casal, o qual chegou a afirmar em carta redigida em próprio punho que antes do casamento ouviu no confessionário da boca de Caetana que ela manifestava vontade de se casar. Durante cinco anos, a moça viveu separada de Custódio, sem consumar o casamento, até o processo passar por todas as instâncias burocráticas necessárias. Não há registros se depois da decisão judicial ela cumpriu seus deveres de esposa e voltou a morar com o marido, o qual, aliás, em juízo, afirmou não ter interesse em permanecer com ela contra sua vontade. Tampouco se conhece de onde Caetana tirou força para desafiar as estruturas de poder da sociedade de seu tempo, já que casamentos forçados, principalmente entre escravos, eram comuns. O que se sabe é que o audacioso “não” de Caetana reverberou na história como símbolo de coragem.
 
Revista de História da Biblioteca Nacional Edição nº 100/14
23 de jan. de 2014
Postado por UENES GOMES

PODE NÃO TER SIDO JANSZOON O CONQUISTADOR DA AUSTRÁLIA

Um canguru pode provar que foram os portugueses a descobrir a Austrália?
Livro de orações do século XVI que mostra um pequeno canguru desenhado levanta a hipótese de os navegadores portugueses terem chegado à Austrália antes de 1606, ano da descoberta holandesa.
O manuscrito terá sido feito entre 1580 e 1606 Les Enluminures Gallery
 
O manuscrito português, que terá sido feito entre 1580 e 1620, mostra aquilo que parece ser um pequeno canguru numa das suas letras. Se for mesmo uma representação com 400 anos deste mamífero marsupial, o desenho sugere, escreve o diário britânico The Telegraph, que os exploradores portugueses chegaram à Austrália antes de Willem Janszoon, o navegador holandês a quem se atribui a descoberta, em 1606.
O documento, que foi comprado recentemente pela galeria Les Enluminures, de Nova Iorque, que o avalia em 11 mil euros, a um negociante de livros antigos em Portugal, é um volume de orações, em tamanho de bolso, que pertencia a uma freira e inclui, na página em que o canguru aparece, a partitura de uma procissão litúrgica. Esta religiosa chamava-se, muito provavelmente, Catarina de Carvalho e vivia num convento nas Caldas da Rainha.
Para Laura Light, investigadora da galeria, não há dúvidas da importância desta representação no que toca à reescrita da história. “O canguru num manuscrito tão antigo prova que o seu autor ou esteve na Austrália ou, ainda mais interessante, que relatos de viajantes e desenhos dos curiosos animais que podiam encontra-se neste novo mundo estavam já disponíveis em Portugal”, disse ao australiano The Age.

“Creio que tudo isto é muito entusiasmante para quem já acredita que foram os portugueses a descobrir a Austrália mas, para quem não acredita nisso, este manuscrito não é assim tão estimulante”, conclui o especialista em mapas.
Outros investigadores, escreve o Telegraph, defendem que o manuscrito pode ter sido feito logo após a descoberta de Janszoon ou ser produto de uma viagem portuguesa à Papua Nova Guiné. Entre eles está John Gascoigne, membro da Academia Australiana de Humanidades, para quem será preciso muito mais do que um desenho num livro de orações para provar que foram os portugueses os primeiros a chegar. A tarefa é difícil, salienta ao Age, porque neste período a coroa de Lisboa era extremamente sigilosa em relação às suas rotas marítimas – pormenor que Laura Light, da galeria nova-iorquina também sublinha, mas para sustentar a tese contrária – e porque muitos dos documentos que poderiam estar relacionados com esta descoberta terão sido destruídos no terramoto de 1755.
Além disso, diz Gascoigne , “o intervalo possível de criação do documento vai até 1620, o que acomoda a data da chegada de Willem Janszoon e do seu Duyfken ao norte da Austrália”. Também ele acredita que o desenho pode ter decorrido da viagem à Papua, em 1526.
Ainda que a descoberta holandesa esteja registada como a oficial, há já anos que os historiadores levantam a possibilidade de outros navegadores da Europa ocidental terem aportado à Austrália muito antes, com base em documentos variados, incluindo cartografia.
Lembra Light que algumas das “provas” mais recorrentes são precisamente mapas da década de 40 do século XVI, oferecidos ao rei Henrique VIII de Inglaterra, que mostram uma grande massa de terra abaixo da Indonésia e da Papua Nova Guiné.
Peter Trickett, recorda o jornal australiano The Sydney Morning Herald, historiador e autor do popular Além de Capricórnio (editado em Portugal pela Caderno, em 2007), é um dos que alega que foram os navegadores portugueses os primeiros a mapear a costa australiana, em 1521-22, muito antes dos holandeses. É por isso que o académico diz que “não é nada surpreendente que a imagem de um canguru tenha aparecido em Portugal no final do século XVI”.
No mesmo livro de orações surgem ainda dois desenhos, também dentro de letras, que representam figuras masculinas em trajes tribais, com o tronco nu e adornos de penas na cabeça. Laura Light acredita que são aborígenes.
 
FONTE: Público
22 de jan. de 2014
Postado por UENES GOMES

GUIA POLITICAMENTE NÃO INDICADO

Os historiadores, professores de História, especialistas diplomados se posicionam com relação alguns livros de conteúdos historiográficos publicados recentemente e que têm virado febre nacional, cito os "famosos" Guias Politicamente Incorretos, da História do Brasil, América Latina, Filosofia, afinal de contas é sobre um deles, o Guia Politicamente Incorreto da América Latina, que trataremos aqui. O texto é de dois jornalistas que utilizam uma linguagem menos rançosa, o que acontece alcançar públicos não especializados e que geralmente não gostam de história pelo motivo da linguagem formal. No entanto é importante a atenção em determinados aspectos dos textos apresentados uma vez que na sua maioria não há no todo uma metodologia pertinente para dizer dos fatos apresentados nos textos. É um dos problemas decorrentes que os acadêmicos apontam para as obras de Laurentino Gomes, no tocante o ultimo volume que trata da proclamação da república e traz uma série de fatores que não cabem no enredo contexto histórico. Apesar da vasta bibliografia há vários atropelos no discorrer do processo da narrativa. Mas o que quero compartilhar aqui é um texto de uma especialista em História da América Latina, que rebate um dos Guias Politicamentos incorretos, a saber o da América Latina, sua área.

Maria Lígia Coelho Prado, graduada em História pela FFLCH/Universidade de São Paulo (1971), Mestre em História Social, FFLCH/USP (1974) e Doutora em História Social, FFLCH/USP (1982); Livre-docente em História da América Independente, FFLCH/USP (1996); Professora Titular em História da América Independente, FFLCH/USP (2002). Professora Emérita FFLCH/USP (2012). Foi presidente da Associação Nacional de Pesquisadores e Professores de História das Américas (ANPHLAC), 1998/2000. É especialista em História da América Latina, trabalhando na intercessão dos campos da História Política, História da Cultura e História das Idéias. Foi coordenadora do Projeto Temático/FAPESP: Cultura e Política nas Américas: Circulação de Idéias e Configuração de Identidades (séculos XIX e XX) entre 2007 e 2011. Membro do Laboratório de Estudos de História das Américas - LEHA do Departamento de História da USP, que coordenou entre 2008 e 2012. (texto do Lattes da docente ) 
Em entrevista ao Estadão a Doutora fala sobre o livro.

O principal objetivo desse Guia Politicamente Incorreto da América Latina, nas palavras dos autores, é derrubar do pedestal o que chamam de "falsos heróis latino-americanos". São "falsos" porque deles se construíram injustas imagens laudatórias. O livro quer mostrar a "outra" face desses homens, indicando seus equívocos, fraquezas e incapacidades. Cada capítulo está dedicado a um dos personagens que será objeto de críticas, de Simón Bolívar a Che Guevara.
Sem dúvida, a decisão dos autores de centrar o texto nas figuras dos "heróis" ou dos assim denominados "grandes homens" é bastante decepcionante. A desmistificação de heróis - "falsos" ou não, latino-americanos ou europeus - foi tarefa já exaustivamente cumprida pelos historiadores. Para que o passado histórico seja compreendido, é indispensável que se faça uma cuidadosa análise dos pensamentos e ações de homens e mulheres envolvidos na complexa trama de questões sociais, políticas, culturais, religiosas e econômicas.
Para construir seus argumentos e ordenar sua narrativa, Leandro Narloch e Duda Teixeira se apoiam em muitas citações retiradas da bibliografia e indicam suas fontes em notas de rodapé, conferindo ao livro um pretenso ar de respeitabilidade acadêmica.
Todos os capítulos trazem afirmações polêmicas, simplificações oportunas e interpretações discutíveis que mereceriam ser esquadrinhadas. Repetem a equivocada estratégia de pinçar frases a esmo, retirando-as do contexto histórico, atribuindo-lhes valores positivos ou negativos sem as devidas explicações e restringindo, portanto, sua compreensão. Diante de tantas possibilidades para o exercício da crítica, analisamos dois procedimentos utilizados pelos autores para sustentar seus pontos de vista.
O primeiro deles é o de se apropriar de uma fonte bibliográfica contestada e corroída por suspeitas e apresentá-la ao leitor brasileiro como fidedigna e isenta. O capítulo sobre Salvador Allende, que é particularmente controverso e recheado de afirmações refutáveis, exemplifica tal utilização imprópria. Narloch e Teixeira, no item 6 do capítulo, retiram informações do livro do chileno Víctor Farías, Salvador Allende, Anti-semitismo e Eutanásia, para acusar o falecido presidente de racista e antissemita e para associá-lo a certas práticas nazistas. Essas rotulações já foram fortemente denunciadas e refutadas no Chile, inclusive com a publicação de documentos que demonstram os equívocos de todas as acusações.
Para mais clara compreensão do manuseio das fontes pelos autores, vamos nos ater à questão do racismo e antissemitismo. Sobre esse tema, Narloch e Teixeira reproduzem trechos retirados do livro de Farías, que supostamente teriam sido transcritos da tese Higiene Mental e Delinquência, que Allende escreveu para obter o título de médico em 1933. As frases atribuídas a Allende estão carregadas dos piores preconceitos sobre judeus, ciganos, árabes, italianos, homossexuais e alcoólatras. Entretanto, a Fundação Presidente Allende, da Espanha, para refutar as diatribes de Farías, publicou a tese original de Allende, que também está disponível na internet. O que se constata é que Allende estava, no trecho mencionado, reproduzindo frases do médico e criminologista italiano Cesare Lombroso - ele afirma isso literalmente - numa discussão sobre suas teorias, como ainda era usual no começo dos anos 30. A conclusão de Allende sobre as possíveis relações, defendidas por Lombroso, entre origem étnica e delito criminoso, é a de que não havia dados precisos para demonstrar tal influência "no mundo civilizado" (p. 115 da tese). Frase esta que não aparece na transcrição de Farías e do Guia. Como se sabe, o bom historiador e o bom jornalista devem checar suas fontes, estudá-las, compará-las, garantir sua credibilidade e depois transcrevê-las com correta isenção.
O segundo procedimento refere-se ao mecanismo de utilização de uma fonte bibliográfica de prestígio para referendar ou legitimar conclusões bastante diferentes daquelas defendidas pelos autores do Guia. O capítulo sobre Pancho Villa, líder da revolução mexicana, é, nesse sentido, exemplar. A intenção explícita de Narloch e Teixeira é demonstrar que Pancho Villa não era antiamericano e não foi um Robin Hood latino-americano (p. 239). Para alcançar seu objetivo, os autores fazem referências a trabalhos de historiadores de onde retiram informações pontuais e dados específicos. Entre eles, um se sobressai, pois é citado em 27 das 47 notas de rodapé: Friedrich Katz, historiador da revolução mexicana, homem de convicções esquerdistas e autor de uma monumental biografia de Pancho Villa. Nela, Katz salienta o lugar de Villa no movimento revolucionário e procura fugir das lendas e da construção do mito. A trajetória pessoal e política de Villa é analisada integrada ao contexto social do México. Assim, existe um fosso entre a abordagem e conclusões de Katz e aquelas encontradas no Guia. A voz de autoridade de Katz é utilizada apenas para conferir credibilidade aos argumentos do Guia.
Para terminar, uma observação de caráter geral. Os autores apresentam no Guia uma visão desdenhosa sobre a história da América Latina. Só se entende essa exacerbada desqualificação se ela for pensada como a outra face do real desconhecimento dos autores sobre o assunto.
Estadão (link para a matéria) publicado em 2011.
30 de dez. de 2013
Postado por UENES GOMES

AS ÁGUAS APAGARÃO PARTE DA HISTÓRIA DO AÇÚCAR EM PERNAMBUCO E DA REVOLTA PRAIEIRA

Casa-grande do Engenho Verde será inundada por barragem em Palmares

Cleide Alves. Jornal do Comércio

Foto: Hélia Scheppa/JC Imagem


O Engenho Verde foi um ponto de apoio da Revolução Praieira, a última manifestação popular contra a monarquia e os senhores de engenho ocorrida no Estado / Foto: Hélia Scheppa/JC ImagemNo próximo ano, a casa-grande do Engenho Verde, em Palmares, município da Mata Sul de Pernambuco, será inundada pela Barragem Serro Azul, que está sendo construída para contenção de enchentes do Rio Una e abastecimento humano. O velho bangalô, representante da economia açucareira da região, não será visto nem mesmo no nível mais baixo do reservatório.
Serro Azul vai cobrir o casarão inteiro, do jeito como se encontra hoje, com suas colunas e platibanda (mureta que camufla o telhado) decoradas, arcos, portas, janelas e piso de ladrilho hidráulico. Mas não é só isso. Junto com as paredes, também ficará submersa uma parte da história de rebeldia dos pernambucanos.

O Engenho Verde foi um ponto de apoio da Revolução Praieira, a última manifestação popular contra a monarquia e os senhores de engenho, ocorrida no Estado, de 1848 a 1850. Pedro Ivo, um dos líderes da insurreição, comandou uma frente de batalha nas matas do engenho, no ano de 1849, diz o historiador Aramis Macedo Júnior.

Chefe do Setor de Arqueologia do Instituto de Tecnologia de Pernambuco (ITEP), organização social sem fins econômicos, ele pesquisou o assunto para elaborar o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) da barragem.
As terras que serão alagadas do Engenho Verde estão ligadas à luta por liberdade de imprensa e voto universal, pela extinção do poder moderador e pelo fim do monopólio comercial dos portugueses, principais bandeiras defendidas pelos liberais praieiros, no levante contra o governo de dom Pedro II.
De acordo com Aramis Macedo Júnior, as primeiras referências ao engenho, em cartório, remetem a 1792. Era uma propriedade de Miguel Francisco Guimarães e ele havia recebido as terras em sesmaria. Isso não significa que o engenho é uma construção do século 18. “Pode ser mais velho”, pondera.
Até o início do século 20, a área era vinculada ao município de Bonito. Foi incorporada a Palmares numa reformulação municipal. O Engenho Verde também tem raízes culturais. Lá nasceu o romancista Hermilo Borba Filho, em 1917. Uma escrivaninha que ainda decora a sala principal teria pertencido ao dramaturgo, segundo informações repassadas ao Itep.

O bangalô, diz Aramis Macedo, é um tipo simples e comum de estrutura de engenho de cana-de-açúcar: terraço em formato de U, um só pavimento, telhado de quatro águas e platibanda. Passou por reformas ao longo dos anos e mudou de feição. “Houve subtrações e acréscimos”, observa. Fotografias antigas mostram a escada de acesso numa fachada diferente da atual. O porão, fechado com alvenaria, era aberto.

Uma das hipóteses a ser investigada seria o uso do porão como senzala. “Acho inviável por causa da umidade. O escravo era caro e não ficaria numa área insalubre, onde adoeceria com frequência. Pode até ter sido a senzala, mas em algum momento o porão serviu como depósito”, afirma.

Todas as etapas construtivas do engenho serão mapeadas pelo Itep e Laboratório de Arqueologia da Universidade Federal de Pernambuco. A pesquisa está sendo iniciada, no casarão e no terreno. Os arqueólogos vão procurar vestígios da fábrica (onde se produzia o açúcar), capela, senzala e povoado, construções que não existem mais.

O estudo das paredes da casa-grande – tijolos e camadas de pintura – servirão para fazer as datações, por termoluminescência e carbono 14. “Vamos tentar identificar o tijolo mais antigo usado na edificação e analisar as camadas de tinta”, diz Aramis.

O resgate histórico e arqueológico inclui, ainda, o uso de um scanner laser, de alta resolução, para mapear as fachadas do bangalô. Pela riqueza de detalhes captados pela máquina, é possível criar uma maquete 3D da casa-grade, sem perder uma informação do imóvel, diz ele.

“Teremos noções de profundidade, luz e sombra com exatidão”. A casa-grande, hoje, é um hotel fazenda, em processo de desapropriação pelo governo do Estado, responsável pela construção da barragem.

Jornal do Comércio. Artigo publicado em 29/12/13 nesse jornal. Todos os direitos reservados.
29 de dez. de 2013
Postado por UENES GOMES

UMA REDE PARA UM BOM DESCANSO.

 
Segunda-feira. É como se começássemos cansados melhorássemos na quarta e estivéssemos a todo vapor na sexta-feira, mas na sexta a saga tem um novo início. No entanto final de semana combina com descanso ao modo colonial, deitado numa varanda apreciando a paisagem se balançando numa rede. De ricos a pobres, a verdade é que todos já utilizaram o artefato de invenção indígena; e nem pensem que nossos antepassados nativos eram preguiçosos, não. A rede servia como cama, para pernoitarem nas ocas! Enfatizando essa mania gostosa, ou melhor à história dessa "cama" em que o corpo se adapta e propicia um conforto peculiar, viajamos ao período pré-cabralino. Nossos nativos já usavam a rede muito antes de ser documentada nos relatórios dos viajantes e por Debret no seus quadros e publicados no livro Viagem pitoresca ao Brasil. As redes produzidas nas aldeias de longe tinham o aspecto das redes mais pobres que conhecemos. Eram confeccionadas de modo artesanal rústico, sem a beleza dos acabamentos rebuscados mais tarde acrescentados na produção. Câmara Cascudo, um grande estudioso do folclore e da cultura popular menciona como eram confeccionadas no período em que a rede era utensílios somente dos indígenas: "Eram confeccionadas em teares artesanais, em pequenas proporções e apenas trançavam um retângulo com fios largos, semelhantes a rede de pesca" (Revista Continente). As redes do modo que conhecemos hoje foi produto da plasticidade em se envolver com a cultura aqui já existente. Ao ter contato com as rústicas e pobres redes dos indígenas os portugueses começaram a adotar métodos mais sofisticados e começaram a deixá-las mais apresentáveis. Eram as redes mais compactas, mais fechadas, seguras e ofereciam aos jesuítas e sertanejos segurança de modo que depois a rede tornou-se meio de transporte, numa configuração traduzida pela obra de Debret. 

Com esse contato com esse novo utensilio mais prático para carregar para onde fosse, logo caiu no gosto dos viajantes. A partir daí mamelucos, sertanejos e missionários da companhia de jesus se renderam ao luxo simples que a rede propiciavam a estas pessoas. Não demorou muito e os navios também começaram a adaptá-las, tornando as viagens menos estafantes. 

No não muito opulento Brasil colonial, a rede era o trono do senhor patriarcal. Armando na varanda e de lá vigiando o funcionamento do latifúndio e seu mundo de escravizados. Gilberto Freyre escreveu: Ociosa, mas alagadas de preocupações sexuais, a vida do senhor de engenho se tornou uma vida de redes [...] da rede não precisava se afastar para dar ordens ao negro, escrever cartas, jogar gamão com parentes e/ou compadres"

Se no nordeste ela tornou-se mais que um móvel plástico, chegou até a ser caixão, nas outras regiões do país ela teve sua influência. Nas regiões centrais do país foi disseminada entre bandeirantes: propícia para dormir, evitava contato com o chão e seus perigos noturnos; Dos mamelucos. Portanto no sul do país não foi bem aceita mediante o frio intenso. Era fina e não protegia. Sendo indispensável mantas de couro ou se usasse a rede, havia sempre fogueiras próximas, aquecendo. A tentativa de levá-la à África não teve muito sucesso uma vez que lá havia o uso maciço das esteiras (e nós também a herdamos) Assim ficando no Brasil sua aceitação quase unanime. Casa-grande e senzala usaram as redes de formas diversas. Contudo diante da precariedade higiênica e as graves epidemias que aconteciam no início da colonização, as redes também foram tachadas como vilãs. Para que as pessoas deixassem de usá-las começou uma árdua campanha difamando-a como anticivilizada, detestável. Argumentos estes que reforçava a troca da rede pela cama, tida mais higiênica. Era anticivilizada porque obrigava o senhor da casa-grande esconde-la da varanda quando as visitas eram anunciadas. Assim como os beirais sumiram, as gelosias também se foram, as redes resistem até os dias de hoje. A que se deve tamanha resistência?

Imagem1. Passeio de rede. Debret.
Imagem2.  Rótula de fasquias de madeira com que se tapa o vão de uma janela; rótula, janela de rótula.
De consulta serviu a Revista de multiculturalidade Continente. A revista trouxe uma reportagem completa sobre as redes. 
Continente nº 139/ jul/12

26 de dez. de 2013
Postado por UENES GOMES

VÍDEO DESTAQUE

A HISTÓRIA DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA DO NORTE. O vídeo é uma produção do site Café História e a Café História TV.


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