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PORTUGUÊS MEDIEVAL
| Versão impressa. |
O “Vocabulário do Português Medieval”, um lista com cerca de 170 mil palavras que eram usadas nos atuais territórios de Portugal e da Galícia (norte da Espanha) na Idade Média, foi lançado nesta sexta-feira (10), no Rio de Janeiro, após 35 anos de pesquisa.
A obra, elaborada por filólogos e lexicólogos da Fundação Casa de Rui Barbosa, instituto vinculado ao Ministério da Cultura. O vocabulário, em que cada palavra em desuso está vinculada ao seu correspondente atual, foi elaborado a partir de documentos datados em Portugal e na Galícia entre os séculos XIII e XV, segundo o ministério.
A obra, que começou a ser redigida em 1979, também permite identificar a origem comum do português e do galego e os diferentes caminhos que os separam. Além do trabalho de buscar e compilar os documentos originais, o projeto levou 35 anos para ficar pronto por causa das dificuldades de publicação.
Os autores tentaram pela primeira vez em 1984 mas, sem patrocínio, se limitaram então a um fascículo. Em 1986 e em 1994 foram publicadas adaptações em partes, mas não todo o vocabulário. A lista só foi completada em 1999, quando foi digitalizado. E só agora, com o patrocínio do ministério, os autores conseguiram lançar mil exemplares do vocabulário, que tem dois volumes.
FOLHA DE SÃO PAULO
12 de out. de 2014
Postado por
UENES GOMES
PARA PENSAR O SÉCULO XX
Breve, porém intenso. Assim o século XX começa após a Primeira Guerra Mundial e termina com o fim da URSS. Nesse espaço de tempo caíram impérios, formaram-se países, valores foram conquistados, as indústrias triplicaram sua capacidade, a guerra assolou muitas nações, ditaduras levantaram-se, democracias se formaram, o Brasil conhece duas ditaduras, a economia quebra, a mulher conquista espaço, o cinema é propagado, a busca frenética pelo ouro, a televisão chega ao alcance de pessoas que nunca imaginaram ver aquilo... um pouco de tudo isso reunido em cenas selecionadas por Marcelo Masagão. Um documentário premiadíssimo e que merece a atenção das salas de aula de História.
O século XX por meio de uma pesquisa de arquivo e tendo como pano de fundo, orientando a narrativa, Freud e Hobsbawn.
"É um filme-memória sobre o século XX, a partir de recortes biográficos reais e ficcionais de pequenos e grandes personagens que viveram neste século. Este filme pretende discutir a banalização da morte e, por correspondência direta, da vida. Noventa e cinco porcento das imagens são de arquivo: Filmes antigos, fotos e reportagens de TV. O filme não tem um locutor e nem depoimentos orais dos personagens envolvidos. A sonorização é toda realizada com músicas, efeitos sonoros e silêncios. A música é de Wim Mertens. O título NÓS QUE AQUI ESTAMOS, POR VÓS ESPERAMOS foi extraído do pórtico de um cemitério de uma cidade do interior de São Paulo." (Press-release)
21 de set. de 2014
Postado por
UENES GOMES
OS LEGADOS DA REVOLUÇÃO FRANCESA: Declaração dos Direitos do Homem.
A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão foi anunciada ao público em 26 de agosto de 1789, na França. "Ela está intimamente relacionada com a Revolução Francesa. Para ter uma ideia da importância que os revolucionários atribuíam ao tema dos direitos, basta constatar que os deputados passaram cerca de 10 dias reunidos na Assembléia Nacional francesa debatendo os artigos que compõem o texto da declaração. Isso com o país ainda a ferro e a fogo após a tomada da Bastilha em 14 de julho do mesmo ano", explica o professor Bruno Konder Comparato, professor no Departamento de Ciências Políticas da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade da Cidadania Zumbi dos Palmares.
| A Liberdade Guiando o Povo, de Delacroix: França exporta revolução. Imagem. N.E. |
Havia urgência em divulgar a declaração para legitimar o governo que se iniciava com o afastamento do rei Luís XVI, que seria decapitado quatro anos depois, em 21 de janeiro de 1793. "Era preciso fundamentar o exercício do poder, não mais na suposta ligação dos monarcas com Deus, mas em princípios que justificassem e guiassem legisladores e governantes", diz o professor.
A importância desse documento nos dias de hoje é ter sido a primeira declaração de direitos e fonte de inspiração para outras que vieram posteriormente, como a Declaração Universal dos Direitos Humanos aprovada pela ONU (Organização das Nações Unidas), em 1948. Prova disso é a comparação dos primeiros artigos de ambas:
O Artigo primeiro da Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, diz: "Os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem fundar-se na utilidade comum".
O Artigo primeiro da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948: "Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade".
O professor chama a atenção sobre os direitos sociais, não mencionados explicitamente no texto do documento. "Ela se concentra mais nos direitos civis, que garantem a liberdade individual - os direitos do homem - e nos direitos políticos, relativos à igualdade de participação política, de acordo com a defesa dos revolucionários do sufrágio universal, o que corresponde aos direitos do cidadão".
Foi também na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão que o lema da República Francesa se inspirou: "liberdade, igualdade, fraternidade". O professor Bruno afirma que, dos três, a igualdade era o mais importante para os revolucionários. "No turbulento período que se seguiu à revolução, sempre que foi necessário optar, sacrificou-se a liberdade em defesa da igualdade. É o que explica a centralização do poder e o regime do terror", afirma.
Este artigo está disponível no site da Revista Nova Escola. Abril.
29 de jul. de 2014
Postado por
UENES GOMES
UM ESTADO DIVIDIDO
NACIONALISTA E COLONIALISTA, O SIONISMO GARANTIU A
CRIAÇÃO DE ISRAEL. A DIPLOMACIA BRASILEIRA TAMBÉM PARTICIPOU DO PLANO
Por André Castanheira Gattaz.
www.gattaz.pro.br
No final do século XIX, o movimento sionista começou a promover a imigração de judeus europeus para a Palestina. Esta corrente se intensificou após a Primeira Guerra Mundial, quando a região passou para o domínio britânico. Em meados do século XX, a proporção entre colonos e nativos havia sido completamente alterada, gerando conflitos cada vez mais violentos entre a população palestina e os grupos de judeus recém-chegados.
Percebendo a dificuldade em manter a paz, a Inglaterra abriu mão do mandato sobre a Palestina, delegando à recém-criada Organização das Nações Unidas a tarefa de decidir o destino da área. Foram criados comitês que analisaram e debateram o assunto durante sete meses, recomendando a partilha da terra para a constituição de dois Estados, um árabe e outro judeu. Em novembro de 1947, o assunto foi levado à votação na Assembleia Geral, à época presidida pelo chefe da delegação brasileira na ONU, Osvaldo Aranha – homem forte do governo de Getúlio Vargas entre os anos 1930 e 1944, e retornado ao governo de Eurico Dutra como diplomata.
Embora inicialmente houvesse oposição da maioria dos países ao plano, o governo estadunidense instruiu seus representantes na ONU para que conseguissem a partilha. Várias nações foram ameaçadas de retaliações financeiras se fossem contra a partilha, enquanto aquelas que fossem a favor eram premiadas com a concessão de empréstimos em condições especiais. Prevista para o dia 26 de novembro, a votação foi adiada por dois dias, dando mais tempo aos lobistas pró-sionistas para obter os votos que lhes faltavam. Segundo um dos principais historiadores israelenses, esses dois dias foram essenciais para conseguir o apoio de Libéria, Taiti e Filipinas. Reunida a Assembleia no dia 28, a decisão novamente foi adiada a pedido do representante francês, e no dia seguinte o plano de partilha foi enfim votado. Ao contrário do que se podia prever uma semana antes, o plano foi aprovado por 33 países a favor e 13 contra, com dez abstenções. Por seu papel fundamental nessas negociações, adiando a decisão até que a maioria fosse obtida, Osvaldo Aranha recebeu a gratidão de Israel, embora ele tenha sido favorável à política que restringia a entrada de judeus no Brasil no período em que foi Ministro das Relações Exteriores, durante o Estado Novo.
O plano de partilha desagradou os dois lados envolvidos no conflito, dando origem a uma guerra que se estendeu de 1947 a 1949, em que o recém-criado Estado judaico conquistou parte das terras atribuídas aos palestinos. Em 1967, em novo avanço militar israelense, as regiões de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental foram também ocupadas, permanecendo sob controle israelense até os dias de hoje, embora diversas resoluções da Assembleia Geral e do Conselho de Segurança da ONU tenham condenado tal ocupação. Segundo a própria ONU e a maioria dos analistas, a solução do conflito passa pela desocupação israelense das terras conquistadas em 1967 e a construção efetiva de um Estado Palestino soberano, vivendo lado a lado e pacificamente com o Estado de Israel, como previa o plano apoiado por Osvaldo Aranha.
André Castanheira Gattaz é professor da Universidade do Estado da Bahia e autor de A Guerra da Palestina: da criação do Estado de Israel à Nova Intifada (Usina do Livro, 2003) e Do Líbano ao Brasil: história oral de imigrantes (Gandalf, 2005).
Saiba mais:
CARNEIRO, Maria Luiza T. O anti-semitismo na Era Vargas. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1988.
FINKELSTEIN, Norman G. Imagem e realidade do conflito palestino. Rio de Janeiro/São Paulo: Ed. Record, 2005.
FONTE: Revista de História
FONTE: Revista de História
ENCONTRO DE HISTÓRIA - UPE CAMPUS MATA NORTE
O II Encontro de História Antiga e Medieval de Pernambuco – olhares do presente ao passado, ocorrerá entre 25 e 28 de agosto na Universidade de Pernambuco, Campus Mata Norte, reunindo pesquisadores de quatro Estados. Haverá ciclo de palestras, minicursos e apresentação de banners. Este encontro é realizado pelo Leitorado Antiguo com o apoio da Direção do Campus Mata Norte. Inscrições no seguinte link. Para maiores informações: leitorado.upe@gmail.com
Divulgação do site do evento http://www.leitoradoantiguo.org/
A TRANSIÇÃO DO FEUDALISMO AO CAPITALISMO
Por Francisco Falcon & Gerson Moura

No setor
agrícola, o processo de acumulação se realiza através das transformações
agrárias conhecidas como cercamentos ou enclosures, implicando no avanço
do capitalismo no campo. Tais cercamentos eliminam as sobrevivências feudais,
promovendo a reorganização das parcelas, expropriando rendeiros e parceiros,
apropriando-se o senhor das reservas e terras comuns, cercando-as a fim de
reuni-las às suas próprias terras para faze-las produzir mais e melhor. Assim,
liquida-se o sistema comunitário de exploração, suprimem-se os direitos
coletivos sobre as terras, pastos e florestas, provocando a saída de grande
contingente de camponeses do campo ou convertendo-os em simples assalariados.
Praticados intensamente em certas regiões
da Inglaterra desde o final do século XV, os cercamentos tiveram nos séculos
XVI e XVII um outro caráter suplementar, ou seja, irá substituir o cultivo de
cereais pela criação de ovelhas, dada sua maior rentabilidade em função da alta
dos preços da lã no mercado internacional, no momento em que as indústrias
têxteis se difundem.
Em outras regiões do continente europeu,
os cercamentos, próximos dos centros urbanos, traduzirão mudanças no
comportamento da nobreza ou a apropriação de terras valorizadas em termos
capitalistas, por elementos burgueses.
No setor industrial, verifica-se
nesse período o aparecimento e expansão acelerada do capital industrial, quer
dizer, o capital resultante da aplicação de recursos nas atividades produtivas
de tipo artesanal e do seu reinvestimento nessas mesmas atividades.
Quer seja oriunda do próprio meio
artesanal, através de um processo de diferenciação interna, quer seja egressa
do setor mercantil, o fato importante é que a burguesia industrial tende
a distinguir-se cada vez mais da burguesia mercantil, interessando-se
acima de tudo pela expansão da produção industrial. Esta burguesia é a grande
responsável pelo desenvolvimento dos diversos tipos de manufaturas que
encontramos nessa época. Beneficiária, a princípio, da política de privilégios
inerentes ao mercantilismo, ela tende, aos poucos, a combatê-los e contesta-los
como instrumentos inadequados e até mesmo nocivos ao desenvolvimento ulterior
da produção e dos negócios em geral.
A manufatura assume nesse processo
uma importância muito grande porque é no seu interior que se faz sentir cada
vez mais a crescente diferenciação entre os detentores do capital e os que,
embora ainda possuam seus instrumentos de trabalho, se subordinam cada vez mais
aos primeiros como assalariados. Até que ocorram grandes progressos técnicos,
colocando a máquina nas mãos do capitalista, o artesão pode resistir,
bem ou mal, à sua completa expropriação, fazendo valer a sua capacidade técnica
e artística em defesa de sua autonomia relativa.
No plano mercantil, a
acumulação decorre, na realidade, de duas atitudes inseparáveis do comerciante
europeu desde a parte final da Idade Média: pirataria e comércio.
O saque das colônias é a fonte mais imediata dessa acumulação, bastando
recordar o saque espanhol na América e o inglês na Índia.
Esgotando-se rapidamente as possibilidades
oferecidas pelo saque, é preciso incentivar o comércio, outra fonte de
acumulação – veja-se, por exemplo, o comércio com o Oriente em busca das especiarias
e com a África em busca de escravos.
Possuindo a América terras e minas e sendo
necessário reunir aí os fatores produtivos para dela obter mercadorias
exportáveis, configuram-se as três outras formas assumidas pela acumulação
primitiva no plano mercantil: a exploração das minas, a exploração
agrícola através das plantações tropicais e, como condição de
ambas, a exploração da mão-de-obra
indígena ou importada. Esta última apresenta-se, por sua
vez, como fonte de grandes lucros para os comerciantes nela interessados,
podendo-se acrescentar aí também os lucros advindos do tráfico dos chamados
“escravos brancos” para as colônias inglesas da América do Norte.
A luta por estas diversas atividades de
exploração altamente lucrativas, ou por algumas delas, irá caracterizar as
relações internacionais européias do século XVI ao século XVIII, com constantes
guerras continentais e marítimas, européias e coloniais, ao longo das quais é
possível estabelecer sucessivas “hegemonias”: a dos paises ibéricos no século
XVI, a holandesa no século XVII e a inglesa, fortemente contestada pela França,
no decorrer do século XVIII.
A exploração das áreas coloniais
possibilitou, assim, a organização de um verdadeiro sistema de acumulação à
sombra do domínio exercido sobre a respectiva produção e comércio. Tal “sistema
colonial” distingue perfeitamente as características da colonização e do
relacionamento com a metrópole entre as chamadas “colônias de povoamento” e as
“colônias de exploração”. Em relação a estas últimas é que o referido “sistema”
tende a funcionar plenamente com a exportação da produção agrícola ali
desenvolvida sos o sistema de plantation, monopolizada pelos
comerciantes metropolitanos de acordo com o princípio do “exclusivismo”.
Proíbe-se toda e qualquer relação comercial com outras colônias ou com outros
países. Ao mesmo tempo, restringem-se as atividades da colônia, no campo da
produção, a fim de não haver concorrências com a produção metropolitana. A colônia
existe para a metrópole e sua função precípua é possibilitar o enriquecimento
da mesma, quer como fornecedora de mercadorias quer como consumidora dos
produtos metropolitanos ou importados através da metrópole. No fundo, o sistema
colonial é uma peça essencial do próprio “sistema mercantilista”.
O mercantilismo, como
“política econômica de uma era de acumulação primitiva”, integra e coordena
estes esforços de uma burguesia em expansão, garantindo-lhe privilégios,
lucros, exclusividade, defendendo, em suma, os seus níveis de renda, através da
proteção estatal, e assegurando-lhe as bases políticas e institucionais para
fazer valer os seus interesses materiais em relação não apenas à nobreza, mas
principalmente em relação ao campesinato e aos artesãos, progressivamente
reduzidos à condição de proletariado rural e urbano.
B – A LIBERAÇÃO DE MÃO-DE-OBRA
(Formação do proletariado)
“Dizer hoje que o capitalismo pressupõe a
existência de um proletariado já se tornou um lugar-comum, mas o fato de que a
existência de tal classe dependa de um determinado conjunto de circunstâncias
históricas raras vezes mereceu atenção no passado, em mãos de autores que
dedicaram uma boa soma de análise à evolução do capital sob suas várias formas
e ao desabrochar do espírito capitalista.” (Dobb, Maurice. A Evolução do
Capitalismo”, p. 272-3)
Na realidade, a liberação da mão-de-obra,
principalmente a camponesa, e a conseqüente formação de um proletariado
constituem apenas a outra face do processo que denominamos de “acumulação
primitiva”. Esta, na verdade, é o processo criador tanto do Capital
quanto do Trabalho, como produtos conjuntos. Houve assim o
desapossamento ou expropriação de muitos por alguns poucos, através da vantagem
econômica ou política.
“Pode
ser que um dos motivos para a negligência comum nesse aspecto da questão tenha
sido a suposição implícita de que o aparecimento de um exército de
trabalhadores fosse um produto simples da população crescente, criando mais
braços do que os empregáveis nas ocupações existentes e mais bocas do que as
sustentáveis pelo solo então cultivado. A função histórica do Capital foi dotar
do benefício do emprego esse exército de braços excessivos. Se fosse esta a
história real, poderíamos ter algum motivo para falar do proletariado como
sendo uma criação natural, em vez de institucional, e tratar a acumulação e o
crescimento de um proletariado como processos autônomos e independentes. Tal
quadro idílico, no entanto, deixa de ajustar-se aos fatos. Na verdade, os
séculos nos quais um proletariado se recrutou mais rapidamente eram aqueles de
aumento demográfico natural lento e não rápido e a escassez ou plenitude de uma
reserva de mão-de-obra nos diversos países não se correlacionava a diferenças
comparáveis em suas taxas de crescimento demográfico”. (DOBB, Op. cit. p. 273-4)
A análise do processo histórico de formação
do proletariado, ou de liberação de mão-de-obra para as relações capitalistas,
pode ser levada a cabo em função dos diversos setores das atividades
produtivas: agricultura e indústria.
A liberação da mão de
obra na agricultura está ligada
ao processo de cercamento dos campos, já descrito, ao qual cabe a maior parte
da responsabilidade pela expropriação do camponês, privando-o de suas terras e
reduzindo-o à condição de assalariado. De fato, o mecanismo mesmo do cercamento
dos campos determina, logo de saída, a perda de suas terras (parcelas) por
todos os camponeses que não podem defender juridicamente o seu direito de ocupá-las
em caráter hereditário ou vitalício. Quase sempre só os pequenos proprietários
(verdadeiros ou ocupantes das terras em caráter hereditário) conseguem
manter-se, pois os que possuem terras arrendadas são compelidos, cedo ou tarde,
a abandoná-las. Já aí, portanto, temos uma primeira fonte de camponeses sem
terras. Aos poucos, porém, o pequeno proprietário cercado, sem as terras e os
direitos de uso comum que suplementavam os seus recursos e ainda às voltas com
o crescimento familiar e a divisão de terras daí decorrente, vê-se obrigado a
abandonar o campo em busca de outras regiões ou então se dirige para as
cidades, de onde muitas vezes emigra para as colônias.
Em muitos casos, porém, a difusão do tipo
de manufatura dispersa, ou mesmo a simples atividade do comerciante-empresário
que percorre os meios rurais a fim de utilizar a mão-de-obra camponesa, permite
o desenvolvimento do artesanato rural, fornecendo ao camponês artesão uma renda
suplementar que irá possibilitar a sua resistência, durante um prazo ora maior,
ora menor, às pressões do capitalismo agrário, pois surgem as insuficiências
dos seus rendimentos agrícolas.
É evidente que a substituição de muitas
pequenas propriedades por algumas poucas e grandes, de que a Inglaterra é o
exemplo clássico, não constitui a única forma de desapossamento capaz de fazer
surgir um proletariado. A outra forma deriva da tendência à diferenciação
econômica existente dentro da maioria das coletividades de pequenos produtores.
“Os
fatores principais nessa diferenciação são as diferenças surgidas no correr do
tempo na qualidade ou quantidade de terras possuídas e nos instrumentos de
cultivo da terra e animais de trabalho, sendo instrumento do desapossamento
eventual a dívida” (DOBB, Op. cit .p. 307-311
Na indústria, a
liberação da mão-de-obra processa-se de maneira mais lenta, uma vez que
as corporações defendem vigorosamente os seus privilégios. Apesar dessa
resistência, as corporações foram incapazes de impedir o desenvolvimento da
indústria doméstica rural, bem como o aparecimento das manufaturas privilegiadas,
de modo que esses novos setores concorrem de maneira crescente com a produção
das oficinas corporativas, incapazes de acompanhar a expansão do mercado
consumidor. Além disso, dificilmente a produção artesanal urbana do tipo
tradicional consegue resistir aos preços mais baratos que caracterizam a
produção dos novos setores.
Acresce notar que as próprias corporações
são dilaceradas e enfraquecidas pelos
seus conflitos e contradições internas, opondo cada vez mais os companheiros
aos patrões ou mestres. Verifica-se, ainda, no interior mesmo das corporações,
um processo de diferenciação que irá dar origem à burguesia industrial, pois,
enquanto alguns patrões enriquecidos se transformam em empresários, a maioria
dos mestres e companheiros são reduzidos à situação de dependência em que
aparecem como semi-assalariados. Desse modo a corporação se desintegra,
pressionada por forças internas e externas que irão promover progressivamente o
seu desaparecimento, o qual atinge a sua etapa derradeira no momento mesmo em
que a burguesia industrial consegue imprimir ao Estado as suas características
liberais, hostis, portanto, ao mercantilismo do Antigo Regime. Mestres e
companheiros, em sua maior parte, irão constituir, então, a mão-de-obra
especializada das últimas manufaturas e das primeiras fábricas, desempenhando
um importante papel nessa etapa do desenvolvimento industrial.
C – OS PROGRESSOS DA
TÉCNICA APLICADA À PRODUÇÃO
Os progressos técnicos estão
evidentemente ligados às duas “pré-condições” que acabamos de focalizar:
capital e mão-de-obra. É a partir das necessidades criadas pelo
desenvolvimento da produção e do comércio, típico da expansão européia
verificada a partir do século XV, que os progressos técnicos se aceleram. O renascimento
científico marca o primeiro momento desse impulso cuja importância se
torna decisiva nos séculos XVII e XVIII, quando então a curiosidade científica,
a nova mentalidade voltada para a observação e a experimentação abre caminho às
conquistas científicas desse período e, concomitantemente, ás possibilidades de
aplicação e utilização dos princípios e teorias assim elaborados ao próprio
processo produtivo. Trata-se de um capítulo extremamente difícil e
controvertido, qual seja o de analisarmos este avanço simultâneo, paralelo ou
não, da ciência e da técnica durante os séculos XVII e XVIII. Nascendo de exigências práticas ou de
especulações teóricas, conforme o caso, as invenções se sucedem e abrem novas
perspectivas para a solução de problemas que embaraçam determinadas etapas das
atividades produtivas.
No plano da produção propriamente dita,
verifica-se a tendência à crescente divisão e especialização do trabalho,
vinculadas à necessidade de maior produtividade. Com isso, abrem-se novas
possibilidades à utilização de inventos mecânicos capazes de multiplicar o
trabalho humano, utilizando a energia hidráulica e mais tarde o vapor.
Realmente, sem essa divisão acentuada do trabalho, é impossível entender-se o
processo através do qual foi possível inventar máquinas capazes de realizar com
maior rapidez e com maior regularidade movimentos simples até então executados
manualmente. É evidente que não se poderia esperar, nos primórdios da
industrialização, a invenção de máquinas complexas capazes de executar
simultânea e sucessivamente tarefas múltiplas. Os progressos técnicos,
portanto, permitiram que se inventassem máquinas capazes de multiplicar o
trabalho humano sem com isso, no entanto, chegar propriamente a dispensá-lo.
Numa segunda etapa, coube à máquina, em função da sua própria natureza e do que
ela representa em termos de investimento de capital, acelerar o desenvolvimento
do sistema capitalista, desempenhando um papel decisivo no processo de separação
entre o trabalhador e os seus instrumentos de trabalho, uma vez que tende a
acentuar a distinção entre o capitalista, dono do capital e
conseqüentemente das máquinas, e o trabalhador assalariado, que dele
depende para a própria sobrevivência, como comprador de sua força ou capacidade
de trabalho.
O advento da máquina, como
coroamento dos progressos técnicos e científicos da era pré-capitalista,
constitui, ao mesmo tempo, o marco inicial de uma nova era assinalada de
maneira cada vez mais acentuada pelo avanço científico e tecnológico e suas
aplicações, sempre crescentes, aos processos produtivos. Esta transformação
verificou-se historicamente pela primeira vez na Inglaterra da segunda metade
do século XVIII, muito embora tenha sido preparada pelos avanços já obtidos
desde o século XVI e no decurso do século XVII.
Na Inglaterra do século XVIII verificava-se, com o rápido crescimento do
mercado interno e do mercado externo, uma exigência de constante aumento da
produção manufatureira, a fim de atender a estas novas possibilidades de venda.
Para o empresário, este aumento da produção
deveria processar-se de tal maneira que a sua margem de lucro fosse preservada
e se possível ampliada, o que nos leva ao problema da produtividade. Realmente,
o grande problema que está nas próprias origens do maquinismo é a questão da
redução dos custos de produção. É fácil entender-se que, mantido o trabalhador,
isto é, a mão-de-obra, em condições bem próximas às do seu limite de
sobrevivência por força dos baixos salários da época, não seria possível
reduzir ainda mais esses salários, pois isto representaria a própria liquidação
da mão-de-obra. Medidas paliativas tais como a maior utilização do trabalho feminino
e infantil não poderia resolver em definitivo o problema. Daí, como única
saída, procurar-se o aumento da produtividade dessa mão-de-obra, que por ser
abundante, ganha muito pouco, mas da qual se pretende extrair o máximo possível
de sua capacidade de trabalho. A divisão e a especialização do trabalho
vão permitir então que, com a introdução da máquina, seja possível resolver o
problema. De fato, a máquina multiplica a produtividade da mão-de-obra, pois é
possível agora ao mesmo trabalhador executar, com o auxílio dela, tarefas que
antes demandariam muitas horas e dias de trabalho ou muitos trabalhadores. É
fácil, portanto, compreender que a máquina veio agravar a tremenda exploração
que caracteriza os primórdios da revolução industrial, pois agora o empresário
capitalista irá procurar, simultaneamente, obter o máximo do capital que
investiu na compra ou fabricação da máquina e o máximo do salário pago ao
trabalhador, ao só pela própria utilização da máquina, mas pela maior extensão
possível do dia de trabalho, o qual não raro atingia 16 ou mesmo 18 horas.
7 de mar. de 2014
Postado por
UENES GOMES
4 de mar. de 2014
Postado por
UENES GOMES
HISTÓRIA DO BRASIL POR BORIS FAUSTO
Documentário sobre a história do país pelo historiador Boris Fausto.
17 de fev. de 2014
Postado por
UENES GOMES
CULTURA LETRADA E CULTURA ORAL NO RIO DE JANEIRO.
Da edição de fevereiro, da Revista de História da Biblioteca Nacional, excelente indicação do Prf. Fabiano Vilaça dos Santos (UFRJ). Cultura Letrada e Cultura oral no Rio de Janeiro dos vice-reis, Marta Beatriz Nizza da Silva. Aqui transcrevo o texto da página 92 da edição supramencionada. Alguns dos maiores problemas enfrentados pelos vice-reis do Brasil na segunda metade do século 18 foram as disputas de fronteira entre portugueses e espanhóis no sul, as dificuldades para disciplinar e prover as tropas e a necessidade de promover novas culturas agrícolas e o comércio. Sobre estas questões há um sem-número de documentos em arquivos brasileiros e estrangeiros, outros tantos publicados, além de trabalhos acadêmicos. Mas os assuntos nos quais Maria Beatriz Nizza da Silva se detém neste livro são de outra natureza. Dedicada à história cultural desde os anos 70, a autora desenvolve, de 1770 até a chegada da corte em 1808, a articulação entre cultura letrada e cultura oral no Rio de Janeiro.
Com uma narrativa ágil e bem encadeada, construída a partir de uma diversificada pesquisa documental em Portugal e no Brasil, a historiadora destaca, por exemplo, a atuação do marquês do Lavradio e de Luiz de Vasconcelos e Souza no período. Seguindo diretrizes de ministros ilustrados, como Martinho de Melo e Castro e D. Rodrigo de Souza Coutinho, os vice-reis conjugaram a dupla empreitada de defender os interesses portugueses no sul e incentivar o progresso científico na capital do Estado do Brasil. Esta é uma das principais chaves para entender Cultura letrada e cultura oral no Rio de Janeiro dos vice-reis.
Outra possibilidade é percorrer o caminho pavimentado pela autora; espécie de pano de fundo para o entendimento da produção de uma cultura letrada nos moldes da ilustração portuguesa: a reforma da Universidade de Coimbra, em 1772; a criação de órgãos de censura; e o trânsito de gente natural do Rio de Janeiro por Instituições de Ensino europeias, dentre outros aspectos.
A ausência de imprensa e de universidade na América portuguesa e o crivo da censura metropolitana não impediram, no espaço colonial, a assimilação de uma cultura letrada por meio de livros e impressos diversos que aqui circulavam. Uns transmitiam o pragmatismo da Coroa para instruir os habitantes, por intermédio dos governantes, sobre o aproveitamento das riquezas naturais da Colônia. Outros, considerados perigosos por seu conteúdo, especialmente sobre religião e política, foram combatidos, como os jornais que noticiavam a Revolução Francesa e tiravam o sono do conde de Resende. Apesar do zelo das autoridades, a entrada desses papéis pelo porto do Rio, de grande efervescência na segunda metade do século 18, foi inevitável. Esses escritos, trazidos por estudantes, burocratas, mercadores, alimentavam conversas privadas e em lugares públicos (as boticas, os mercados), espaços de sociabilidade onde uma população, em grande parte iletrada, consumia os textos por meio de leituras coletivas. Críticas ao rei, às leis da monarquia e ao clero exaltavam os ânimos e animavam a parolagem dos colonos, constituindo também um traço importante da cultura ilustrada luso-brasileira.
UNESP, 351 PÁGINAS <<http://www.estantevirtual.com.br/q/cultura-letrada-e-cultura-oral-no-rio-de-janeiro-dos-vice-reis>>
15 de fev. de 2014
Postado por
UENES GOMES
SER A OUTRA? NUNCA!
Fredegunda de Nêustria
A Rainha Assassina
Uma das principais fontes sobre Fredegunda é extraída da história do Reino Franco. Uma delas foi retirada do erudito Gregório de Tours e a outra é a crônica anônima Liber Historiae Francorum. Gregório, um contemporâneo seu, traça um imagem muito negativa da rainha na sua Historia Francorum. Por outro lado, o escrito, datado do século 8° oferece uma imagem mais positiva da rainha, vista como uma rainha empreendedora. Independente das duas fontes, essa rainha é considerada uma das mais perversas da história, rivalizando com a de sua antecessora Brunilda.
A Rainha Fredegunda, de Nêustria, era jovem, bela e impiedosa quando, em 579, tornou-se amante do idoso rei Chilperic I, de Nêustria. O problema é que o rei era casado com Galswintha . Ela não media esforços para se tornar mulher do rei e assassinou a rainha. Assim que conseguiu ter um filho com o rei, fez com que os cinco filhos do casamento anterior fossem assassinados. Depois de Chilperic foi morto, ela se proclamou rainha e ficou no poder até 579, ano de sua morte.
PODE NÃO TER SIDO JANSZOON O CONQUISTADOR DA AUSTRÁLIA
Um canguru pode provar que foram os portugueses a descobrir a Austrália?
Livro de orações do século XVI que mostra um pequeno canguru desenhado levanta a hipótese de os navegadores portugueses terem chegado à Austrália antes de 1606, ano da descoberta holandesa.
| O manuscrito terá sido feito entre 1580 e 1606 Les Enluminures Gallery |
O manuscrito português, que terá sido feito entre 1580 e 1620, mostra aquilo que parece ser um pequeno canguru numa das suas letras. Se for mesmo uma representação com 400 anos deste mamífero marsupial, o desenho sugere, escreve o diário britânico The Telegraph, que os exploradores portugueses chegaram à Austrália antes de Willem Janszoon, o navegador holandês a quem se atribui a descoberta, em 1606.
O documento, que foi comprado recentemente pela galeria Les Enluminures, de Nova Iorque, que o avalia em 11 mil euros, a um negociante de livros antigos em Portugal, é um volume de orações, em tamanho de bolso, que pertencia a uma freira e inclui, na página em que o canguru aparece, a partitura de uma procissão litúrgica. Esta religiosa chamava-se, muito provavelmente, Catarina de Carvalho e vivia num convento nas Caldas da Rainha.
Para Laura Light, investigadora da galeria, não há dúvidas da importância desta representação no que toca à reescrita da história. “O canguru num manuscrito tão antigo prova que o seu autor ou esteve na Austrália ou, ainda mais interessante, que relatos de viajantes e desenhos dos curiosos animais que podiam encontra-se neste novo mundo estavam já disponíveis em Portugal”, disse ao australiano The Age.
“Creio que tudo isto é muito entusiasmante para quem já acredita que foram os portugueses a descobrir a Austrália mas, para quem não acredita nisso, este manuscrito não é assim tão estimulante”, conclui o especialista em mapas.
Outros investigadores, escreve o Telegraph, defendem que o manuscrito pode ter sido feito logo após a descoberta de Janszoon ou ser produto de uma viagem portuguesa à Papua Nova Guiné. Entre eles está John Gascoigne, membro da Academia Australiana de Humanidades, para quem será preciso muito mais do que um desenho num livro de orações para provar que foram os portugueses os primeiros a chegar. A tarefa é difícil, salienta ao Age, porque neste período a coroa de Lisboa era extremamente sigilosa em relação às suas rotas marítimas – pormenor que Laura Light, da galeria nova-iorquina também sublinha, mas para sustentar a tese contrária – e porque muitos dos documentos que poderiam estar relacionados com esta descoberta terão sido destruídos no terramoto de 1755.
Além disso, diz Gascoigne , “o intervalo possível de criação do documento vai até 1620, o que acomoda a data da chegada de Willem Janszoon e do seu Duyfken ao norte da Austrália”. Também ele acredita que o desenho pode ter decorrido da viagem à Papua, em 1526.
Ainda que a descoberta holandesa esteja registada como a oficial, há já anos que os historiadores levantam a possibilidade de outros navegadores da Europa ocidental terem aportado à Austrália muito antes, com base em documentos variados, incluindo cartografia.
Lembra Light que algumas das “provas” mais recorrentes são precisamente mapas da década de 40 do século XVI, oferecidos ao rei Henrique VIII de Inglaterra, que mostram uma grande massa de terra abaixo da Indonésia e da Papua Nova Guiné.
Peter Trickett, recorda o jornal australiano The Sydney Morning Herald, historiador e autor do popular Além de Capricórnio (editado em Portugal pela Caderno, em 2007), é um dos que alega que foram os navegadores portugueses os primeiros a mapear a costa australiana, em 1521-22, muito antes dos holandeses. É por isso que o académico diz que “não é nada surpreendente que a imagem de um canguru tenha aparecido em Portugal no final do século XVI”.
No mesmo livro de orações surgem ainda dois desenhos, também dentro de letras, que representam figuras masculinas em trajes tribais, com o tronco nu e adornos de penas na cabeça. Laura Light acredita que são aborígenes.
FONTE: Público
HISTÓRIA DO BRASIL NAÇÃO É APENAS UMA PEÇA NO QUEBRA-CABEÇA DA HISTÓRIA DA AMÉRICA LATINA
Pablo Jiménez Burillo, diretor da Fundação MAPFRE fez uma observação que merece ser copiada na íntegra para completar nossa postagem, sobre a coleção ele diz: “Para oferecer esta aproximação da história brasileira com a da América Latina, em seu conjunto, é necessário adotar um olhar abrangente para suas múltiplas facetas a partir de perspectivas econômicas, políticas, culturais e sociais. E requer, ao mesmo tempo, conjugá-las com a história de outros países que tenham influenciado na história das nações americanas e que tenham recebido uma forte influência destas, seja em seu próprio continente ou do outro lado do Atlântico”, a saber que estes livros que estão sendo lançados no Brasil circularão noutros países e assim os livros editados nas outras nacionalidades serão vendidos aqui também para que haja o concreto propósito do projeto.
Mais informações sobre a coleção (*)
A coleção é composta por seis volumes: “Crise colonial e independência: 1808-1830” (lançado agora); “A construção nacional: 1830-1889” (com data de publicação prevista para fevereiro de 2012); “A abertura para o mundo: 1889-1930” (em junho de 2012); “Olhando para dentro: 1930-1960” (em outubro de 2012); “A busca da democracia: 1960-2010” (em março de 2013); e “Um olhar sobre o Brasil. A fotografia na construção da imagem da nação: 1833-2003” (em junho de 2013).
* Creio que houve um problema com as emissões dos volumes, pois em 2013 foi publicado o quarto volume, estando para este ano os últimos, os quais são esperados com ansiedade.
FOTO: Fundación MAPFRE
14 de jan. de 2014
Postado por
UENES GOMES
2014 ANO DOS 450 ANOS DE NASCIMENTO DE SHAKESPEARE
Deve haver algo que possibilite identificar um Hamlet em qualquer jovem contra o sistema. Qualquer menina de 15 anos sabe por que Julieta acaba enfiando em si mesma um punhal. Qualquer pai zeloso compreende o drama de um rei chamado Lear.
Desde o século 16, esses e outros personagens percorrem palcos do mundo todo, nas páginas de uma obra que atravessou quatro séculos até aqui. Em abril do ano que vem, completam-se 450 anos do nascimento de William Shakespeare (1564-1616).
As celebrações serão acompanhadas por uma enxurrada de produções e publicações, justificadas também pela proximidade de outra efeméride: em 2016 fecham-se os 400 anos da morte do maior dramaturgo que o mundo já conheceu.
HAMLET NA MOCHILA
As celebrações já ganharam destaques nos jornais ingleses e americanos. O "New York Times" publicou, há pouco mais de um mês, artigo sobre uma invasão de peças do bardo inglês na Broadway. O jornal deu destaque, também, à versão em que Alan Cumming faz vários personagens de "Macbeth".
Nos EUA, na França, no Japão e também no Brasil, a quantidade de projetos com peças de Shakespeare aumentou. Mas é da Inglaterra, terra natal do autor, que vem o mais ambicioso deles.
O Globe Theatre, famoso palco em Londres onde Shakespeare trabalhou, hoje um dos pontos turístico mais conhecidos da cidade, divulgará em novembro detalhes da turnê do "Globe to Globe Hamlet", um projeto que pretende viajar para 205 países com "Hamlet" na mochila.
A versão "pocket" da peça, retratada na foto acima, foi concebida para chegar a pontos quase inacessíveis do planeta. "O roteiro passa por diversos lugares, de teatros nacionais a ruínas, de praças urbanas a clareiras no meio da selva", afirma Tom Bird, diretor do projeto.
A turnê começa em abril de 2014 e segue por dois anos, até o dia que marca os 400 anos de morte do dramaturgo -23 de abril. "Os oito atores do elenco viajarão de barco, trem, jipe, ônibus, aeroplano", diz Bird.
Segundo o diretor, o projeto será financiado por três tipos de suporte. "O Globe não recebe subsídio do governo, então precisaremos receber de diversas fontes: pode ser por patrocínios, recursos públicos e venda de ingressos."
No Brasil, afirma, estão previstas apresentações em pelo menos duas cidades, que ainda serão escolhidas. A intenção é apresentar o espetáculo com legendas.
VERSÃO BRASILEIRA
A crítica Bárbara Heliodora, tradutora da obra de Shakespeare, apoia o vale-tudo que promete varrer o mundo.
"Sempre há versões modernas, com trajes contemporâneos, e há as versões de época. O importante é fazer uma boa leitura do texto. Mostre a peça. Não faça outra coisa, porque se não é o texto do Shakespeare, não é Shakespeare", diz, em relação às adaptações diversas.
No Brasil, as experimentações de desconstrução de "Hamlet" foram comuns. Houve, por exemplo, "Ensaio.Hamlet", da Companhia dos Atores, com diálogos bem coloquiais. E, mais recentemente, "H.A.M.L.E.T", do Club Noir, recriação com um príncipe anestesiado.
Heliodora já viu dezenas de atores fazendo o Hamlet original. Elogia Tiago Lacerda pela atuação na peça que estreou em 2012, e elege como mais marcante entre as brasileiras a versão com Sérgio Cardoso, dos anos 1940.
Atualmente, ela orienta dois projetos sobre o bardo inglês. Supervisionou "Shakespeare - Projeto 39", que pretende encenar todas as peças do autor durante os próximos dez anos, e também está à frente de uma versão para "Timon de Atenas".
Inicialmente, a crítica dirigiria com o encenador Bruce Gomlevsky a montagem de "Timon", que tem adaptação assinada pelo National Theatre de Londres. Mas preferiu ficar de fora e atuar como supervisora. A peça estreia em março, mas ainda não foi decidido se primeiramente em São Paulo ou no Rio.
"Shakespeare - Projeto 39" dá seu pontapé inicial nesta quinta, com montagem de "Ricardo 3º", assinada por Marcelo Lazzaratto. Para o diretor, a "ganância desenfreada" do personagem central "é algo que a gente encontra em qualquer lugar". "Até dentro da nossa família, se procurarmos direito."
Segundo Heliodora, ainda há peças de Shakespeare não encenadas no Brasil. De algumas ela nem gosta. "Os Dois Nobres Parentes, por exemplo, é bem fraca", diz.
GUIA POLITICAMENTE NÃO INDICADO
Os historiadores, professores de História, especialistas diplomados se posicionam com relação alguns livros de conteúdos historiográficos publicados recentemente e que têm virado febre nacional, cito os "famosos" Guias Politicamente Incorretos, da História do Brasil, América Latina, Filosofia, afinal de contas é sobre um deles, o Guia Politicamente Incorreto da América Latina, que trataremos aqui. O texto é de dois jornalistas que utilizam uma linguagem menos rançosa, o que acontece alcançar públicos não especializados e que geralmente não gostam de história pelo motivo da linguagem formal. No entanto é importante a atenção em determinados aspectos dos textos apresentados uma vez que na sua maioria não há no todo uma metodologia pertinente para dizer dos fatos apresentados nos textos. É um dos problemas decorrentes que os acadêmicos apontam para as obras de Laurentino Gomes, no tocante o ultimo volume que trata da proclamação da república e traz uma série de fatores que não cabem no enredo contexto histórico. Apesar da vasta bibliografia há vários atropelos no discorrer do processo da narrativa. Mas o que quero compartilhar aqui é um texto de uma especialista em História da América Latina, que rebate um dos Guias Politicamentos incorretos, a saber o da América Latina, sua área.
Maria Lígia Coelho Prado, graduada em História pela FFLCH/Universidade de São Paulo (1971), Mestre em História Social, FFLCH/USP (1974) e Doutora em História Social, FFLCH/USP (1982); Livre-docente em História da América Independente, FFLCH/USP (1996); Professora Titular em História da América Independente, FFLCH/USP (2002). Professora Emérita FFLCH/USP (2012). Foi presidente da Associação Nacional de Pesquisadores e Professores de História das Américas (ANPHLAC), 1998/2000. É especialista em História da América Latina, trabalhando na intercessão dos campos da História Política, História da Cultura e História das Idéias. Foi coordenadora do Projeto Temático/FAPESP: Cultura e Política nas Américas: Circulação de Idéias e Configuração de Identidades (séculos XIX e XX) entre 2007 e 2011. Membro do Laboratório de Estudos de História das Américas - LEHA do Departamento de História da USP, que coordenou entre 2008 e 2012. (texto do Lattes da docente )
Em entrevista ao Estadão a Doutora fala sobre o livro.
O principal objetivo desse Guia Politicamente Incorreto da América Latina, nas palavras dos autores, é derrubar do pedestal o que chamam de "falsos heróis latino-americanos". São "falsos" porque deles se construíram injustas imagens laudatórias. O livro quer mostrar a "outra" face desses homens, indicando seus equívocos, fraquezas e incapacidades. Cada capítulo está dedicado a um dos personagens que será objeto de críticas, de Simón Bolívar a Che Guevara.
Sem dúvida, a decisão dos autores de centrar o texto nas figuras dos "heróis" ou dos assim denominados "grandes homens" é bastante decepcionante. A desmistificação de heróis - "falsos" ou não, latino-americanos ou europeus - foi tarefa já exaustivamente cumprida pelos historiadores. Para que o passado histórico seja compreendido, é indispensável que se faça uma cuidadosa análise dos pensamentos e ações de homens e mulheres envolvidos na complexa trama de questões sociais, políticas, culturais, religiosas e econômicas.
Para construir seus argumentos e ordenar sua narrativa, Leandro Narloch e Duda Teixeira se apoiam em muitas citações retiradas da bibliografia e indicam suas fontes em notas de rodapé, conferindo ao livro um pretenso ar de respeitabilidade acadêmica.
Todos os capítulos trazem afirmações polêmicas, simplificações oportunas e interpretações discutíveis que mereceriam ser esquadrinhadas. Repetem a equivocada estratégia de pinçar frases a esmo, retirando-as do contexto histórico, atribuindo-lhes valores positivos ou negativos sem as devidas explicações e restringindo, portanto, sua compreensão. Diante de tantas possibilidades para o exercício da crítica, analisamos dois procedimentos utilizados pelos autores para sustentar seus pontos de vista.
O primeiro deles é o de se apropriar de uma fonte bibliográfica contestada e corroída por suspeitas e apresentá-la ao leitor brasileiro como fidedigna e isenta. O capítulo sobre Salvador Allende, que é particularmente controverso e recheado de afirmações refutáveis, exemplifica tal utilização imprópria. Narloch e Teixeira, no item 6 do capítulo, retiram informações do livro do chileno Víctor Farías, Salvador Allende, Anti-semitismo e Eutanásia, para acusar o falecido presidente de racista e antissemita e para associá-lo a certas práticas nazistas. Essas rotulações já foram fortemente denunciadas e refutadas no Chile, inclusive com a publicação de documentos que demonstram os equívocos de todas as acusações.
Para mais clara compreensão do manuseio das fontes pelos autores, vamos nos ater à questão do racismo e antissemitismo. Sobre esse tema, Narloch e Teixeira reproduzem trechos retirados do livro de Farías, que supostamente teriam sido transcritos da tese Higiene Mental e Delinquência, que Allende escreveu para obter o título de médico em 1933. As frases atribuídas a Allende estão carregadas dos piores preconceitos sobre judeus, ciganos, árabes, italianos, homossexuais e alcoólatras. Entretanto, a Fundação Presidente Allende, da Espanha, para refutar as diatribes de Farías, publicou a tese original de Allende, que também está disponível na internet. O que se constata é que Allende estava, no trecho mencionado, reproduzindo frases do médico e criminologista italiano Cesare Lombroso - ele afirma isso literalmente - numa discussão sobre suas teorias, como ainda era usual no começo dos anos 30. A conclusão de Allende sobre as possíveis relações, defendidas por Lombroso, entre origem étnica e delito criminoso, é a de que não havia dados precisos para demonstrar tal influência "no mundo civilizado" (p. 115 da tese). Frase esta que não aparece na transcrição de Farías e do Guia. Como se sabe, o bom historiador e o bom jornalista devem checar suas fontes, estudá-las, compará-las, garantir sua credibilidade e depois transcrevê-las com correta isenção.
O segundo procedimento refere-se ao mecanismo de utilização de uma fonte bibliográfica de prestígio para referendar ou legitimar conclusões bastante diferentes daquelas defendidas pelos autores do Guia. O capítulo sobre Pancho Villa, líder da revolução mexicana, é, nesse sentido, exemplar. A intenção explícita de Narloch e Teixeira é demonstrar que Pancho Villa não era antiamericano e não foi um Robin Hood latino-americano (p. 239). Para alcançar seu objetivo, os autores fazem referências a trabalhos de historiadores de onde retiram informações pontuais e dados específicos. Entre eles, um se sobressai, pois é citado em 27 das 47 notas de rodapé: Friedrich Katz, historiador da revolução mexicana, homem de convicções esquerdistas e autor de uma monumental biografia de Pancho Villa. Nela, Katz salienta o lugar de Villa no movimento revolucionário e procura fugir das lendas e da construção do mito. A trajetória pessoal e política de Villa é analisada integrada ao contexto social do México. Assim, existe um fosso entre a abordagem e conclusões de Katz e aquelas encontradas no Guia. A voz de autoridade de Katz é utilizada apenas para conferir credibilidade aos argumentos do Guia.
Para terminar, uma observação de caráter geral. Os autores apresentam no Guia uma visão desdenhosa sobre a história da América Latina. Só se entende essa exacerbada desqualificação se ela for pensada como a outra face do real desconhecimento dos autores sobre o assunto.
Estadão (link para a matéria) publicado em 2011.